terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Adeus. . .

. . . Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.
Você  pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali,  na  Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e  seus trocadilhos por  mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica  e eu  simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus  ingratos! Isso é uma delinqüência de  lingüistas grandiloqüentes! O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio...
A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela.
Os dois pontos disse que eu sou um  preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.
 
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado,  tentei chamar o ponto final pra trabalharmos  juntos, fazendo um  bico de reticências, mas ele negou, sempre  encerrando logo todas  as discussões. Será que se deixar um topete  moicano posso mepassar por aspas? A verdade é que estou fora de moda.  Quem está na moda são os estrangeiros,é o K, o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter,que aliás, deveria se chamar TÜITER.Chega de argüição, mas estejam certos, seus  moderninhos: haverá conseqüências! Chega  de piadinhas dizendo que  estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou   me embora da língua  portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para  o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades.
E não vão agüentar. Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus,

Trema.

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