quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Imagem de inseto preso em resina vence concurso de fotografia científica



A imagem de um inseto capturado por uma gota de resina foi a vencedora do concurso espanhol Fotciencia 2010, criado pelo Conselho Superior de Pesquisas Científicas e pela Fundação Espanhola para Ciência e Tecnologia, na Espanha.
O objetivo do concurso é aproximar a ciência e a tecnologia dos cidadãos comuns através da visão artística e estética presente nas imagens científicas.Segundo o autor Pedro Ramos, a foto registra o início de um processo que dura milhões de anos e que tem uma importância fundamental para o conhecimento de alguns seres já extintos que tiveram seu DNA preservado pelo âmbar.
Qualquer pessoa maior de idade pode participar em duas categorias: Micro, quando a dimensão do objeto é menor ou igual a 1 mm ou a foto foi tirada com microscópio, ou Geral, para os demais casos.

Medo de perder talento liga o autor ao protagonista

Ter animais é tudo de bom!
Sinto isso pelos benefícios diretos que percebo com a convivência com meus Lhasas; além disso, proporcionam surpresas, como o que ocorreu ontem.
Ao colocar jornais para os animais, encontrei a entrevista que Philip Roth, autor de "A Humilhação", publicada pela Folha de São Paulo em 22 de maio, há mais de 7 meses. . .
Como escreveu a repórter Cristina Fibe, "conhecido por espelhar os personagens em si mesmo, Roth falou sobre os amigos que perdeu, a família que nunca construiu e o "desespero terrível" que é sentir "a ausência do talento".
O livro, lançado naquela época no Brasil, completa uma série de romances curtos - quatro - da qual faz parte "A Humilhação" e que, para Roth, embora não tenham uma ligação óbvia, tem uma identidade, pois "giram em torno de uma ameaça".
Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
Na foto, clicada por Gilberto Tadday da Folha Imagem, Philip Roth, autor de 'A Humilhação', em seu apartamento no Upper West Side, em Manhattan.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gastos do governo com pagamento de juros são os maiores em dez anos



. . . e o pior é que este fato se repete ao longo dos anos: grande parte da receita - impostos escorchantes - é destinada ao pagamento dos juros da dívida. 
O quadro mostra que, no ano de 2009, foi destinado 35,57% para pagamento de juros (a amortização é ilusória, pois a dívida cresce, sempre).
A propósito, o percentual destinado à educação (2,88%) e a saúde (4,64%):  esses gastos são muito pequenos e, comparados com o pagamento dos juros, uma grave distorção.
Logo abaixo, a reportagem que foi publicada pela Folha.com






SHEILA D'AMORIM DE BRASÍLIA, 29/12/2010 - 12h29


Nos últimos dez anos, o governo nunca pagou tanto juros como em 2010. De janeiro a novembro deste ano, o gasto com encargos financeiros que incidem sobre a dívida pública somou R$ 175,8 bilhões, o maior valor desde 2001, início da série revisada do Banco Central.
No entanto, como a economia deve ter um crescimento recorde este ano, a relação dessas despesas com o PIB (Produto Interno Bruto) registra uma tendência de queda, alcançando 5,31%.
Segundo o chefe-adjunto do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel, esse gasto recorde com juros se deve ao aumento da inflação. Somente o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que corrige 24,3% do total da dívida pública, incluindo títulos e operações bancárias, passou de um patamar acumulado de 3,93%, de janeiro a novembro de 2009, para 5,25% no mesmo período deste ano.
O IGP-M (Índice Geral de Preços -- Mercado) e o IGP-DI (Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna) --que respectivamente indexam 4,9% e 1,1%-- também tiveram altas consideráveis.
A projeção do Banco Central para 2011 é de uma redução na carga de juros para 4,8% do PIB. Com isso, o deficit nominal deve cair dos 2,3% do PIB esperados para este ano para 1,7% do PIB. Já a dívida líquida do setor público deverá passar de 40,3% do PIB em 2010 para 37,8% do PIB.


ATÉ NOVEMBRO
O superavit primário do setor público (economia para pagar juros) acumulado de janeiro a novembro atingiu 2,74% do PIB (Produto Interno Bruto). No fluxo de 12 meses terminados em novembro, o valor é mais baixo: 2,51%.
Na prática, isso significa que dificilmente o governo Lula, no seu último ano de mandato, conseguirá cumprir a meta de economizar o equivalente a 3,1% do PIB em 2010, sem usar o artifício contábil de abater das despesas alguns gastos com investimentos.
Uma projeção feita a partir dos dados do divulgados há pouco pelo Banco Central mostra que mesmo se, em dezembro, União, Estados, municípios e estatais fizerem juntos uma economia de cerca de R$ 15 bilhões, algo próximo a 0,4% do PIB, ainda assim, a meta não deverá ser cumprida. Nesse caso, a saída será retirar da conta os gastos com obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Em novembro, a dívida líquida do setor público subiu para R$ 1,450 trilhão, o equivalente a 40,1% do PIB. O valor em comparação ao PIB foi revisado pelo Banco Central em função da divulgação, pelo IBGE, dos números referentes ao crescimento da economia até o terceiro trimestre deste ano. Como o PIB ficou maior do que o esperado, a relação que estava em torno de 41,3% do PIB caiu.

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/852295-gastos-do-governo-com-pagamento-de-juros-sao-os-maiores-em-dez-anos.shtml

Afastado, representante da OEA critica ONGs e missão de paz no Haiti



FABRÍCIA PEIXOTO E BBC BRASIL EM SÃO PAULO 29/12/2010 - 09h02


Representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) no Haiti há dois anos, o brasileiro Ricardo Seitenfus deverá ser oficialmente destituído do cargo em breve --decisão que ele mesmo interpreta como resposta a sua "postura crítica" em relação ao papel da comunidade internacional na recuperação do país caribenho.


O estopim teria sido uma entrevista ao jornal suíço Le Temps, na qual o brasileiro questiona não apenas o papel das tropas da ONU no Haiti, como também dos principais países doadores.


"A Minustah (Missão de Paz da ONU) não pode ser tratada como se fosse uma verdade divina, como se não pudesse ser objeto de reservas", disse Seitenfus em entrevista à BBC Brasil.


Devastado por um terremoto em janeiro, que deixou mais de 200 mil mortos, o Haiti enfrenta agora uma crise eleitoral: ainda não se sabe como e quando se dará o segundo turno da eleição presidencial, inicialmente marcada para meados de janeiro.


Para o brasileiro, a comunidade internacional está "decidindo" pelo governo do Haiti no processo de reconstrução e as acusações de corrupção no governo local fazem parte de um "discurso ideológico".


"Se a gente imagina que pode fazer isso (reconstruir o país) por meio da Minustah e por meio das ONGs, nós estaremos enganando os haitianos e enganando a opinião pública mundial", diz.


BBC Brasil - O senhor já foi comunicado oficialmente sobre sua destituição do cargo?
Ricardo Seitenfus - Não, ainda não. Eu tinha decidido não tirar férias agora em dezembro, para estar no Haiti nessa fase delicada da eleição. Mas o secretário-geral (José Miguel Insulza) pediu para que eu tirasse as férias. Concluo que nos dois meses, de fevereiro e de março, previstos para que eu ficasse no Haiti, não ficarei mais.
Mas esse não é o problema. O mais grave é o que está acontecendo agora: o representante da OEA não está no Haiti durante uma crise eleitoral. E eu tenho uma capacidade de diálogo com o governo haitiano que ninguém na OEA tem e que poucas pessoas da comunidade internacional têm.


O senhor está no Haiti há dois anos. Houve algum fato mais recente que o tenha levado a adotar essa postura mais crítica?
Logo após o terremoto, foi feito um trabalho excepcional. Na medida do possível, os haitianos receberam ajuda, socorros... Foi feito um mutirão internacional que foi positivo. No entanto, terminada a urgência, as coisas começaram a não funcionar como deveriam. Em março, houve uma reunião com os doadores, em Nova York, na qual foram recolhidos US$ 11 bilhões para o Haiti. Acontece que esses recursos não chegaram ao país.
Criou-se uma comissão internacional para a recuperação do Haiti que até hoje está procurando suas verdadeiras funções. Enfim, as promessas da comunidade internacional não foram cumpridas. E enquanto isso, a situação dos desabrigados continua a mesma.


Isso tudo mudou sua visão dos fatos?
Eu diria que houve uma tomada de consciência progressiva quanto às nossas limitações e, por que não dizer, de nossos fracassos no Haiti... digo, nós da comunidade internacional.
Além disso, no dia 28 de novembro, dia da eleição, foi discutido na reunião do Core Group (países doadores, OEA e Nações Unidas), algo que me pareceu simplesmente assustador. Alguns representantes sugeriram que o presidente René Preval deveria sair do país e que deveríamos pensar em um avião para isso. Eu ouvi isso e fiquei estarrecido.
O primeiro-ministro do Haiti, Jean-Max Bellerive, chegou e logo disse que não contassem com ele para qualquer solução à margem da Constituição e perguntou se o mandato do presidente Preval estava sendo negociado. E foi um silêncio na sala.
Ao meu lado estava o Albert Randim, secretário-adjunto da OEA, ou seja, eu não poderia falar, já que a OEA estava sendo representada por ele. Mas frente ao silêncio dele e dos demais, eu pedi a palavra e lembrei da existência da carta democrática interamericana e que qualquer discussão sobre o mandato do presidente Preval, para mim, seria um golpe. Me surpreendi muito com o fato de o secretário-adjunto da OEA ficar em silêncio diante da possibilidade de encurtamento do mandato de um presidente legitimamente eleito.


Mas muitos defendem um governo provisório como solução ao impasse eleitoral no país...
Eu sempre fui contrário. Um governo provisório não teria legitimidade das urnas e seria o reconhecimento do nosso fracasso. Se depois de quase sete anos (da Missão de Paz no Haiti) nós não conseguimos organizar uma transferência de poder de forma democrática, eu me pergunto como podemos fazer uma avaliação positiva da presença da comunidade internacional, que veio trazer a democracia ao país.


Então suas críticas também se estendem à missão de paz?
Depois do terremoto, a natureza dos desafios haitianos mudou completamente. Estamos diante de um dos maiores desafios... É uma aventura humana reconstruir um país com 10 milhões de habitantes e destruído por uma catástrofe natural. Temos 1,5 milhão de pessoas nas ruas, com 80% de desemprego, a epidemia de cólera.
Não podemos nos restringir aos desafios imaginados em 2004 (início da missão), mesmo erradamente, como uma questão de segurança. A situação é muito mais complicada e exige mais do que uma operação de paz.


Mas o governo brasileiro, por exemplo, tem sido contrário a mudanças no mandato da missão... A que se deve essa posição, na sua opinião?
O sistema internacional não tem instrumentos para enfrentar uma situação como a do Haiti. Temos que trocar de Conselho. Temos que tirar o assunto do Conselho de Segurança e mudá-lo para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
E sobretudo, temos que pensar que o desenvolvimento do Haiti tem que ser feito pelos haitianos. Se a gente imagina que pode fazer isso por meio da Minustah e por meio das ONGs, nós estaremos enganando os haitianos e enganando a opinião pública mundial.


Não está se dando o espaço devido ao governo haitiano nesse processo?
Nem ao governo, nem à sociedade haitiana. O fato de ser solidário não é ser substituto de alguém, é acompanhar alguém. E nós estamos decidindo por eles. Agora estamos nos metendo no processo eleitoral. Deixem as instituições haitianas resolverem seus próprios problemas.


Mas existem acusações de corrupção envolvendo a transferência de recursos para o governo haitiano, em episódios anteriores, não? O país não tem certas limitações institucionais?
Eles têm limitações por nossa culpa. Transferimos todos os recursos via ONGs e não por meio das instituições haitianas. Sem dúvida o Estado haitiano é muito debilitado e ficou pior ainda depois do terremoto, perdendo 30% de seus quadros.
O que temos de fazer? Ter políticas de acompanhamento do Haiti que permitam que esses quadros permaneçam no país. A acusação de corrupção faz parte de um discurso ideológico. Não existe corrupção, existe percepção de corrupção. O Haiti não tem como ser corrupto porque o Estado não possui recursos.
O que se pode questionar é como se administram os recursos que as ONGs recolhem sem prestar contas a ninguém. Esta sim é a grande questão. Faço uma distinção do trabalho que foi feito na emergência, mas essa não pode ser uma política permanente de substituição do Estado pelas ONGs. O Haiti é o Haiti, não é Haitong. Nenhum país aceitaria o que os haitianos são obrigados a aceitar.


E qual o papel do Brasil nesse processo?
O Brasil tem uma responsabilidade muito grande, porque é a primeira vez que temos uma missão de paz tão longa e tão cara para nós, onde pretendemos mostrar uma forma diferenciada de atuar.
O Brasil deveria aproveitar que haverá um novo governo no Haiti e um novo governo no Brasil e fazer um balanço de seis anos e meio de Minustah. Não estou apregoando que o Brasil deva amanhã recolher suas tropas. Isso se faz depois de uma longa discussão, inclusive com o governo haitiano e com as Nações Unidas.
A não discussão é que é o grande erro. Como se a Minustah fosse uma verdade divina, uma iluminação do céu, como se não pudesse ser objeto de reservas. Tenho uma percepção de que a qualidade de uma operação de paz é inversamente proporcional ao tempo de sua duração. Quanto mais uma missão de paz se estende no tempo, menor qualidade ela tem. As boas missões de paz são as curtas missões de paz.

http://www1.folha.uol.com.br/bbc/852201-afastado-representante-da-oea-critica-ongs-e-missao-de-paz-no-haiti.shtml

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OEA afasta brasileiro do Haiti por crítica à comunidade internacional

A Folha.com, publicou neste 27/dez reportagem da Agência EFE sobre a demissão, pela OEA, do brasileiro Ricardo Seitenfus - professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e autor do livro O Brasil vai à Guerra -  que criticara o trabalho de recuperação do Haiti.





A seguir, a íntegra da reportagem:


A OEA (Organização dos Estados Americanos) afastou neste domingo o representante especial do grupo para o Haiti, o brasileiro Ricardo Seitenfus, após ter criticado o trabalho da comunidade internacional na ilha, devastada por um terremoto em janeiro deste ano, uma epidemia de cólera e envolta em uma crise política pelas eleições.


Além de suas responsabilidades no âmbito da OEA, Seitenfus foi o delegado do órgão, a Comissão Provisória para a Reconstrução do Haiti (CIRH). Seu mandato deveria acabar nos próximos meses.


Diplomatas da OEA disseram à agência de notícias Efe que Seitenfus foi "destituído" por causa de uma entrevista que deu ao jornal suíço "Le Temps". O brasileiro negou em entrevista a jornais que a entrevista tenha sido a causa única e alegou que o desgaste com a liderança da OEA vinha de longa data.


Na entrevista ao "Le Temps", o brasileiro questionou o papel da Minustah, a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti, que está no país desde 2004 e cujo braço militar é liderado pelo Brasil. Ele criticou ainda a política dos países em relação ao Haiti.


Seitenfus afirmou na entrevista, divulgada em 20 de dezembro, que a ONU tem "imposto a presença de suas tropas no Haiti, apesar de o país não viver uma situação de guerra civil".


"O Haiti não é uma ameaça internacional. Não estamos em situação de guerra civil. Haiti não é o Iraque ou o Afeganistão. E, mesmo assim, o Conselho de Segurança [da ONU], na ausência de alternativas, impôs os capacetes azuis desde 2004, após a saída do presidente [Jean-Bertrand Aristide]", disse o diplomata ao jornal suíço.


O diplomata brasileiro também disse na entrevista que o Haiti "na arena internacional, basicamente, paga pela sua proximidade com os Estados Unidos". "Haiti tem sido alvo de uma atenção negativa do sistema internacional. Isto se trata, para a ONU, de congelar o poder e transformar os haitianos em prisioneiros de sua própria ilha".


"Os haitianos cometeram o inaceitável em 1804 [ano da independência]: um crime de alta traição para um mundo inquieto. O Ocidente é, portanto, um mundo colonialista, escravista e racista que baseia sua riqueza na exploração das terras conquistadas. Assim, o modelo revolucionário haitiano dá medo nas grandes potências", acrescentou.


Seitenfus também analisa o papel das ONGs no Haiti, principalmente depois do terremoto de 12 de janeiro, observando que os voluntários que vieram depois do terremoto "desembarcaram no Haiti sem nenhuma experiência". "Depois do terramoto, a qualidade profissional caiu muito. Existe uma relação maléfica entre a força perversa das ONGs e o enfraquecimento do Estado haitiano".

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/851197-oea-afasta-brasileiro-do-haiti-por-critica-a-comunidade-internacional.shtml

domingo, 19 de dezembro de 2010

Semeador de Estrelas






Olhando assim não se percebe, pois o efeito da luz faz toda a diferença, por isso à noite. . .

é que se vê a beleza da arte.

Pesquisando na net descobri que as estrelas são um grafitti, arte urbana e que a Estátua, que se localiza em Kaunas, na Lituânia, tem o nome original "O Semeador" e retrata um fazendeiro.

O vídeo disponível no Youtube, mostra o planejamento (brainstorm) do artista 
para fazer a composição adequada com a sombra da estátua.

Morfai, o artista que elaborou a composição, mantém um blog com suas interessantes criações. Clique aqui e veja: arte de rua, arte convencional, wallpaper e muita coisa criativa.

Para conhecer

a Folha online publicou interessante infográfico com número dos 8 anos do governo Lula, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/847573-oito-anos-em-numeros-um-balanco-do-governo-lula.shtml

sábado, 18 de dezembro de 2010

Resgate

Fiz meu primeiro resgate nesta tarde!
Encontrei uma cachorra de cor caramelo, muito bonita e bem cuidada, com a perna traseira esquerda quebrada - provavelmente, resultado de um atropelamento.
O animal, extremamente dócil, não reagiu ao contato, nem quando o tomei no colo e coloquei no carro: em momento algum esboçou qualquer: pareceu-me consciente de tudo o que estava acontecendo. . .
A Dra. Graziele atendeu prontamente e constatou que o fêmur está fraturado, daí a maneira bamba que a perna se movimenta: a cadela, cujo nome agora é Bela, está se apoiando em 3 patas, apenas.
Após medicada, a Bela está em repouso para ser operada na segunda-feira: para recuperar o fêmur será necessária a colocação de um pino.
Após sua recuperação, caso não encontre seus donos, será necessário encontrar um novo lar para a Bela. Vou providenciar uma foto para postar aqui.
Estou feliz por ter vivido este momento ímpar! 

A tecnologia com o foco no futuro


O Portal da ALPHA FM apresenta reportagem sobre designers inovadores na área de tecnologia; embora existam muitas publicações especializadas, esta reportagem é interessante para quem, como eu, é leigo no assunto. Clique aqui e leia na íntegra.
Abaixo, o relógio da fertilidade criado pelo designer Andy Kurovets.

sábado, 20 de novembro de 2010

Cadê a cordialidade?

Luiz Caversan, escreveu texto com o título acima para a Folha.com.


O vídeo a que refere no penúltimo parágrafo é um abuso, um mau gosto em precedentes. Me pergunto como uma pessoa com esse posicionamento pode continuar destilando ódio e preconceito diariamente na mídia.


A sequência de fatos colocam em xeque a civilidade do brasileiro. . .




"Sabe aquela cordialidade do brasileiro, sociologicamente identificada pelo grande Sérgio Buarque de Hollanda e que ao longo dos anos nos fez ter orgulho de sermos uma nação tolerante, generosa, caracterizada como um povo alegre e hospitaleiro, pronto a receber e abraçar a todos?


Muita gente sempre achou que essa tal cordialidade era uma espécie de fachada, um marketing comportamental, digamos assim, e que de cordial o brasileiro não tem nada.


Mas sempre, nós, os talvez ingênuos que acreditam na beleza da vida, teimamos em insistir que, sim, é possível viver sem ódios, preconceitos, intolerâncias, com solidariedade no coração.


Mas é difícil, viu, continuar acreditando que todos nascem iguais perante Deus e perante a lei, porque tem cada espírito de porco solto por aí, que vou te contar...


O que dizer dos jovens bem nascidos que resolveram sair espancando outros jovens na principal avenida de São Paulo, por conta de supostas diferenças de orientação social? Apesar de todas as evidências de crime, foram soltos rapidinho, uma vez que brancos, de classe média; se fossem pobres e/ou pretos estavam jogados em alguma cela decrépita, esquecidos pela mesma Justiça que os liberou incontinenti, deixando-os por aí prontos para outras...


E o que dizer do soldado do Exército do Rio de Janeiro que atirou contra um rapaz depois da Parada Gay (um país que tem as maiores paradas gay do continente deveria ser tolerante, não?), porque o rapaz é "viado"? Foi isso que ele disse, segundo testemunha, chamou de viado, disse que o moço envergonhava a família dele, que merecia morrer e pimba, dá-lhe logo um tiro e pronto, resolvido o problema...


Seria uma onda de homofobia o que está ocorrendo?


Então, o que dizer do jovem de 25 anos, macho pra caramba, que quebrou os dois (os dois!) braços e seis dentes (seis!) de uma professora do Sul do país? O infeliz ficou inconformado porque tirou uma nota baixa e resolveu descarregar sua raiva sobre a educadora, de 57 anos, acabando com a pobre mulher. Na fuga, atingiu um porteiro e um segurança.


O que pensa uma criatura dessas? Pensa?


Ainda lá pelas bandas do Sul, outro exemplo de intolerância que nos envergonha e que humilha nosso povo e nossa suposta cordialidade.


Aqui a coisa é profissional: durante um programa de televisão numa afiliada da Rede Globo em Santa Catarina, o "jornalista" Luiz Carlos Prates, um senhor até que bem apessoado, não fosse a peruquinha meio ridícula, encontrou, segundo ele, a explicação para o número elevado de mortes nas estradas do Estado no último feriado. Olha o que ele disse: "Hoje, qualquer miserável tem um carro. O sujeito jamais lê um livro, mora apertado em uma gaiola que hoje chamam de apartamento. Não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem".


Disse mais: completamente irado, disse que esses que se envolvem em acidentes são uns desgraçados, que não se entendem com a mulher e saem por aí em alta velocidade descarregando suas frustrações.


Ainda bem que o cidadão foi devidamente execrado, sobretudo nas redes sociais, onde o vídeo com sua sandice "pobrefóbica" tem tido muita audiência. Veja aqui.


Bem, viado merece porrada e tiro, professora que não dá boa nota tem mais é que apanhar e perder os dentes e um pobre que ousa dirigir um carro de sua propriedade vai acabar morrendo em acidente mesmo...


É o meu Brasil brasileiro?"


http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizcaversan/833423-cade-a-cordialidade.shtml

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A ética do outro

"Talvez não exista outra lucidez possível a não ser a de imaginar mundos melhores e seres humanos melhores", diz Costa. Em outras palavras: imaginar outros mundos. Colocar o ponto de vista do outro, sempre, no centro de nossas reflexões". Jurandir Freire Costa







Por José Castello, Valoronline, 19/11/2010


Psicanalista acostumado a tomar distância de seu prestigiado consultório, em Copacabana, Rio, para pensar as grandes questões humanas, o pernambucano Jurandir Freire Costa volta à cena, mais uma vez, para nos ajudar. Seu mais recente livro, "O Ponto de Vista do Outro" (Garamond), enfrenta, sem rodeios, sem preconceitos e sem a pretensão de dar lições peremptórias, a questão ética que agita o mundo de hoje. O tema já aparece em outros de seus livros, como "Violência e Psicanálise" (1986), "Ética e o Espelho da Cultura" (1994), e "Sem Fraude, nem Favor" (1998). Agora, porém, ele nos acompanha em um mergulho ainda mais profundo.


Apoiando-se nas ideias de pensadores do porte dos franceses Luc Ferry e Robert Dufour, do alemão Hans Blumenberg, do canadense Charles Taylor e do esloveno Slavoj Zizek, entre outros, que representam distintas, e corajosas, visões a respeito da ética, Costa se lança sobre a obra de dois escritores em geral desprezados como "menores": o inglês Graham Greene (1904-1991) e o americano Philip K. Dick (1928-1982).


A escolha da literatura como via para uma reflexão a respeito da ética basta, por si, como prova da delicadeza com que Costa enfrenta seu tema. A ética é delicada e exige, por isso, o trato de mentes delicadas também - e não o grande estardalhaço, a grande onda de acusações e de ofensas que seu debate costuma motivar. Para Costa, a ética é, em si mesma, uma noção vaga - e, justamente por ser vaga, oferece-se como instrumento precioso para pensar algumas das mais importantes questões humanas. Até porque abre caminho para o exercício sempre fértil da imaginação.


Valor: A ética, ou a ausência dela, esteve no centro da recente campanha presidencial. A palavra ética tornou-se um clichê, usado sem nenhum rigor, agregando um número imenso e contraditório de significados. O que significa falar em ética no mundo de hoje?


Jurandir Freire Costa: Penso que é impossível falar sobre ética com rigor, se se entende por rigor uma definição inequívoca do termo que se está usando. A palavra ética, como liberdade, felicidade etc., é um termo vago, mas cuja vaguidade é justamente o que permite que continuemos a discutir sobre o que é bom, justo, correto e vice-versa. O problema do uso do clichê ética nos meios políticos, como você bem observa, não é a imprecisão da palavra. É a má-fé, a desonestidade, a impostura daqueles que a empregam como escudo contra a indecência com que agem na vida pública.


Valor: Em seu livro, o senhor distingue quatro correntes, quatro maneiras de encarar a questão ética. A primeira se apoia na "divinização do humano". A segunda, em uma submissão ao que se chama de "divino mercado". A terceira coloca, no lugar da ética, a ciência. A quarta, a que o senhor se alinha, procura conciliar duas perspectivas: o retorno às regras impessoais do dever moral herdado das religiões clássicas com a abertura para o que chama de "imprevisível peculiaridade do outro". Não é perigoso reduzir a questão ética a quatro modelos tão fechados?


Costa: Concordo que é perigoso, porque podemos congelar a ética em algumas de suas versões. Do mesmo modo, concordo que as várias posições têm algo em comum, ou seja, a mesma preocupação com o agir ético no mundo de hoje. Mas, enquanto Ferry se alinha à posição do iluminismo liberal, Dufour à corrente, digamos, mais libertária do marxismo e Blumenberg ao iluminismo cientificista, Agamben, Žižek, Derrida, Taylor e John Caputo dão relevo à ética inspirada no messianismo judaico-cristão. Ora, o que me surpreendeu foi encontrar uma grande correspondência entre o que estes últimos autores pensam e o que é discutido nas obras de Graham Greene e Philip K. Dick. Minha intenção foi a de ressaltar essa coincidência, pois, de fato, concordo, em linhas gerais, com o que eles todos defendem.


Valor: Apoiando-se no pensamento do filósofo francês Luc Ferry - primeira posição - o senhor fala da "divinização do humano". Nela, o sagrado se encarna nos laços afetivos e no "coração do humano", em suas palavras. O senhor parece descartar essa visão da ética. Mas, no fim das contas, não é nos impulsos de amor e de ódio que tomamos as mais graves decisões pessoais?


Costa: Os impulsos de amor e ódio são, com certeza, importantes na tomada de decisão ética. Não é por acaso que Heidegger - como discuto no tópico dedicado a Agamben - toma essas emoções como fundamentais ao ser ou ao dasein humano. Mas, no caso de Ferry, amor e ódio se encontram reduzidos à dimensão sentimental dos afetos familiares, o que não é a mesma coisa. Ferry, no fundo, defende uma leitura deflacionada da tese da "secularização". Ou seja, em vez de substituirmos a ideia de Deus pelas ideias de Estado, liberdade, revolução etc., como no iluminismo filosófico ou nas grandes filosofias da história, deveríamos contentar-nos em respeitar os afetos familiares, o cuidado com a ecologia etc. É uma perspectiva interessante, mas que, a meu ver, fica muito aquém do horizonte ético sonhado por Greene e Dick.


Valor: Partindo do pensamento do filósofo francês Robert Dufour, o senhor desenha a segunda posição - aquela em que o mundo aparece regido pela submissão ao "divino mercado" e na qual os homens se movem como rebanhos barulhentos. Essa posição não generaliza uma ética (ou ausência de ética) que está restrita às classes mais abastadas?


Costa: Esse é o problema: o público ao qual se destina a obra do autor. Dufour é um pensador ousado e interessantíssimo. Mas tenho a impressão de que ele tem em mente a situação dos indivíduos nas democracias capitalistas ricas ocidentais e na inclinação das demais sociedades para seguirem esse modelo. No caso do Brasil, estamos longe de atingir esse patamar de satisfação das necessidades básicas e de adesão à sociedade do consumismo e do entretenimento. No entanto, a cultura brasileira, nas grandes linhas, parece se inclinar para esse regime de convívio social. Não vemos, aqui, como no resto do mundo, nenhum esforço genuíno para se pensar sobre outros marcos civilizatórios. Talvez porque não tenhamos condições de imaginar o viver coletivo de forma diversa daquele que é hegemônico; talvez porque essa hipotética forma de vida renovadora surja de maneira imprevista e não previamente programada. Não sei. O que acho é que se o Brasil ainda não está imerso no ethos criticado por Dufour, nada indica que esteja se afastando dele.

Valor: A terceira corrente, que se baseia no pensamento do filósofo alemão Hans Blumenberg, substitui a ética pela ciência. Fundamenta-se na ideia de que a ciência varreu da história a mentalidade religiosa. A expansão dos fundamentalismos e a forte intervenção da perspectiva religiosa nas últimas eleições brasileiras parecem, contudo, desmentir essa hipótese. O mundo não caminha, em ritmo cada vez mais veloz, nas duas direções?

Costa: É possível. Seja como for, penso que o ressurgimento do espírito de seita ou do fundamentalismo religioso atual nada tem a ver com a religiosidade à qual Blumenberg se referia. No pensamento de Blumenberg, o resíduo religioso estava presente nas teses universalistas sobre o sentido da vida, do sujeito, das coletividades, que eram o objeto da especulação das filosofias políticas e históricas. Blumenberg era um legítimo representante do materialismo cientificista do século XIX. Ele depositava uma confiança ingênua na ciência como a atividade humana capaz de orientar os indivíduos na vida moral cotidiana. Como procurei fazer ver, é isso que Charles Taylor critica de forma extremamente inteligente. Questões sobre o sentido da vida, sobre o agir moral, não cabem na agenda da ciência que se preocupa, sobretudo, em explicar aquilo que no mundo é passível de controle e predição.


Valor: A quarta posição, que o senhor abraça, busca a conciliação entre as regras impessoais da moral de origem religiosa e a abertura para o outro, isto é, para o imprevisível. Ela procura recuperar o fundo universal herdado da cultura judaico-cristã. Não seria, no fundo, uma modernização das religiões? Além disso - e a questão do aborto, tão discutida durante a campanha política, parece ser um exemplo disso: é possível preservar o respeito ao outro quando as normas religiosas se impõem com tanto rigor?


Costa: A ética messiânica de origem judaico-cristã, na forma apresentada pelos autores que elegi como operadores da análise, não deve ser confundida com as religiões institucionalizadas, ou seja, com os corpos doutrinários estabelecidos em comunidades confessionais particulares. Esses corpos doutrinários estão marcados por compromissos com as hierarquias sacerdotais, as estratégias de catequese dos crentes e com as visões de mundo próprias aos diversos tempos históricos. As normas religiosas, no sentido apontado por você, nem coincidem nem esgotam o sentido do grande dossel messiânico que está na origem da própria ideia de "respeito ao outro". Em nome do respeito ao outro podemos ser a favor ou contra o aborto. O fundamental, entretanto, é que o debate ocorra num pano de fundo que já pressupõe a ideia de "respeito ao outro" como último árbitro do litígio. Ora, a ideia de respeito ao outro seria inconcebível no mundo da justiça, da ética ou da legalidade greco-romana. Ela é de paternidade judaico-cristã. É isto que Agamben, Žižek, Derrida, Taylor e John Caputo tiveram a intenção de mostrar. É isto que considero o tesouro ético da tradição ocidental, sem que tal apreciação implique etnocentrismo intolerante, preconceituoso, xenófobo, em relação a outras tradições espirituais.


Valor: Em seu livro, o senhor trabalha com dois escritores tidos, em geral, como menores: o inglês Graham Greene (1904-1991) e o americano Philip K. Dick (1928-1982). Por que os escolheu? Seria na literatura mais leve e digestiva que se guarda o melhor espelho do humano?


Costa: Na literatura dos dois encontrei mais facilmente exemplos de conflitos éticos que corroboram a validade da ética leiga de filiação judaico-cristã. Além disso, me aventurei a abordar a literatura de Greene e Dick por não ser capaz de trabalhar gigantes da estatura de Tolstoi, Dostoievski, Kafka, Henri James, Proust, Beckett, Stendahl, Flaubert, ou os nossos Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. Estes últimos são capazes de nos fazer ver o mundo e os sujeitos de maneira inédita. Constroem a maneira pela qual nos vemos e vemos ao mundo. O trabalho, nesse caso, teria que ser mais pontual ou, então, exigiria uma perícia e uma familiaridade com a análise literária, filosófica ou psicanalítica dos textos que não possuo.

Valor: A escolha dos exemplos literários sugere a ideia de que, em nosso mundo tão conturbado, algo de melhor resiste no campo da arte. Reino da fantasia e da imaginação, a arte e a literatura se tornam, apesar disso, ou por isso, um precioso reduto de lucidez?


Costa: Não saberia dizer se a arte é mais ou menos lúcida do que a filosofia, a psicanálise, a história das mentalidades, a política, a teologia. Penso que aquilo que Rorty dizia sobre a literatura é verdade. Os artistas - por serem mais imaginativos do que a maioria de nós em matéria de reflexão sobre o sentido da vida e da ética - são capazes de oferecer visões de mundo e de pessoas mais surpreendentes, mais inauditas, mais capazes de abalar convicções culturais fossilizadas pelo hábito. Talvez isso seja a lucidez da qual você fala. Agora, talvez não exista outra lucidez possível a não ser a de imaginar mundos melhores e seres humanos melhores. O que não quer dizer seres humanos imaculados ou gessificados em modelos de conduta prêt-à-porter, sejam eles políticos, religiosos, científicos, psicológicos ou quaisquer outros de igual teor.


Valor: O senhor diz que os personagens de Greene e de Dick podem ser bons ou maus, decentes ou traiçoeiros, virtuosos ou viciosos, mas que nunca são indiferentes. A indiferença seria, no fim das contas, o grande mal de nosso tempo? A busca de uma ética seria, em resumo, a procura de uma alternativa para a indiferença?

Costa: Não posso resistir a repetir o que Dick diz sobre isso. Uma das figuras do sujeito moral esboçada por ele é a do antiandróide. O antiandróide é o antípoda do "andróide", isto é, do ser falante, consciente e racional que se torna indiferente ao outro, que usa o outro instrumentalmente e que é incapaz de fazer exceção. Acho isso especialmente feliz como injunção ética. Tomara que as pessoas se sintam motivadas a ler os dois. Há muito que aprender com quem realmente tem interesse por nossa insustentável e fascinante condição humana


http://www.valoronline.com.br/impresso/cultura/111/338295/a-etica-do-outro

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A História da Austeridade

A recente reunião do G-20 em Seul foi um fracasso e mostrou que a ordem econômico-financeira criada no final da Segunda Guerra Mundial está colapsando, indicando no horizonte a eclosão de graves conflitos comerciais e monetários. Por toda a parte, os cidadãos vão são sendo bombardeados pelas mesmas ideias de crise, de tempo de austeridade, de sacrifícios compartilhados. O que não é dito é mque a crise foi provocada por um sistema financeiro desregulado, chocantemente lucrativo e tão poderoso que, no momento em que explodiu e provocou um imenso buraco financeiro na economia mundial, conseguiu convencer os Estados (e, portanto, os cidadãos) a salvá-lo da bancarrota e a encher-lhe os cofres sem lhes pedir contas. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos.



A recente reunião do G-20 em Seul foi um fracasso total. Chegou a ser constrangedora a perda de credibilidade dos EUA, como suposta economia mais poderosa do mundo, e o modo como tentaram acusar a China de comportamentos monetários afinal tão protecionistas quanto os dos EUA. A reunião mostrou que a “ordem” econômico-financeira, criada no final da Segunda Guerra Mundial e já fortemente abalada depois da década de 1970, está a colapsar, sendo de prever a emergência de conflitos comerciais e monetários graves. Mas curiosamente estas divergências não têm eco na opinião pública mundial e, pelo contrário, um pouco por toda a parte os cidadãos vão sendo bombardeados pelas mesmas ideias de crise, de tempo de austeridade, de sacrificos repartidos. Há que analisar o que se esconde por detrás deste unanimismo.


Quem tomar por realidade o que lhe é servido como tal pelos discursos das agências financeiras internacionais e da grande maioria dos Governos nacionais nas diferentes regiões do mundo tenderá a ter sobre a crise econômica e financeira e sobre o modo como ela se repercute na sua vida as seguintes ideias: todos somos culpados da crise porque todos, cidadãos, empresas e Estado, vivemos acima das nossas posses e endividamo-nos em excesso; as dívidas têm de ser pagas e o Estado deve dar o exemplo; como subir os impostos agravaria a crise, a única solução será cortar as despesas do Estado reduzindo os serviços públicos, despedindo funcionários, reduzindo os seus salários e eliminando prestações sociais; estamos num periodo de austeridade que chega a todos e para a enfrentar temos que aguentar o sabor amargo de uma festa em que nos arruinamos e agora acabou; as diferenças ideológicas já não contam, o que conta é o imperativo de salvação nacional, e os políticos e as políticas têm de se juntar num largo consenso, bem no centro do espectro político.


Esta “realidade” é tão evidente que constitui um novo senso comum. E, no entanto, ela só é real na medida em que encobre bem outra realidade de que o cidadão comum tem, quando muito, uma ideia difusa e que reprime para não ser chamado ignorante, pouco patriótico ou mesmo louco. Essa outra realidade diz-nos o seguinte. A crise foi provocada por um sistema financeiro empolado, desregulado, chocantemente lucrativo e tão poderoso que, no momento em que explodiu e provocou um imenso buraco financeiro na economia mundial, conseguiu convencer os Estados (e, portanto, os cidadãos) a salvá-lo da bancarrota e a encher-lhe os cofres sem lhes pedir contas. Com isto, os Estados, já endividados, endividaram-se mais, tiveram de recorrer ao sistema financeiro que tinham acabado de resgatar e este, porque as regras de jogo não foram entretanto alteradas, decidiu que só emprestaria dinheiro nas condições que lhe garantissem lucros fabulosos até à próxima explosão. A preocupação com as dívidas é importante mas, se todos devem (famílias, empresas e Estado) e ninguém pode gastar, quem vai produzir, criar emprego e devolver a esperança às famílias?


Neste cenário, o futuro inevitável é a recessão, o aumento do desemprego e a miséria de quase todos. A história dos anos de 1930 diz-nos que a única solução é o Estado investir, criar emprego, tributar os super-ricos, regular o sistema financeiro. E quem fala de Estado, fala de conjuntos de Estados, como a União Europeia e o Mercosul. Só assim a austeridade será para todos e não apenas para as classes trabalhadoras e médias que mais dependem dos serviços do Estado.


Porque é que esta solução não parece hoje possível? Por uma decisão política dos que controlam o sistema financeiro e, indiretamente, os Estados. Consiste em enfraquecer ainda mais o Estado, liquidar o Estado de bem-estar onde ele ainda existe, debilitar o movimento operário ao ponto de os trabalhadores terem de aceitar trabalho nas condições e com a remuneração unilateralmente impostas pelos patrões. Como o Estado tende a ser um empregador menos autônomo e como as prestações sociais (saúde, educação, pensões, previdencia social) são feitas através de serviços públicos, o ataque deve ser centrado na função pública e nos que mais dependem dos serviços públicos. Para os que neste momento controlam o sistema financeiro é prioritário que os trabalhadores deixem de exigir uma parcela decente do rendimento nacional, e para isso é necessário eliminar todos os direitos que conquistaram depois da Segunda Guerra Mundial. O objetivo é voltar à política de classe pura e dura, ou seja, ao século XIX.


A política de classe conduz inevitávelmente à confrontação social e à violência. Como mostram bem a recentes eleições nos EUA, a crise econômica, em vez de impelir as divergências ideológicas a dissolverem-se no centro político, agrava-as e empurra-as para os extremos. Os políticos centristas (em que se incluem os políticos que se inspiraram na social democracia europeia) seriam prudentes se pensassem que na vigência do modelo que agora domina não há lugar para eles. Ao abraçarem o modelo estão a cometer suicídio. Temos de nos preparar para uma profunda reconstituição das forças políticas, para a reinvenção da mobilização social da resistência e da proposição de alternativas e, em última instância, para a reforma política e para a refundação democrática do Estado.


(*) Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17188

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quanto vale um pobre?



Fernando Canzian, repórter especial da Folha, publicou neste dia da República artigo com o título acima, destacando os desafios que a nova Presidente terá para erradicar da miséria como prometeu em campanha.
O artigo mostra os irrisórios valores utilizados: uma família é considerada "pobre" se a renda per capita mensal é inferior a R$ 140,00 e, é classificada como "indigente", se a renda per capita for inferior a R$ 70,00. Muito pouco.
Como diz o repórter, "os valores são ridículos. Equivalem a R$ 4,60 por dia (um maço de Malrboro para o pobre) e R$ 2,30 (menos que uma passagem de ônibus em SP para o indigente)".
A figura abaixo mostra a queda no total de pobres e indigentes no Brasil (redução à metade) nos últimos dez anos. Também é possível verificar onde se concentra essa parcela da popução brasileira.
Clique Ctrl+ para ampliar a imagem
No link, o artigo completo: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandocanzian/830669-quanto-vale-um-pobre.shtml

domingo, 14 de novembro de 2010

Bancos doaram a candidatos R$ 109 milhões



Abaixo reportagem de Daniel Bramat, para o Estadão, deste 14 de novembro de 2010.


Os bancos brasileiros doaram pelo menos R$ 109 milhões a candidatos e a partidos durante a campanha eleitoral de 2010 - essa quantia crescerá quando forem conhecidas as prestações de contas finais de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e as dos candidatos a governador que disputaram o segundo turno.


O mapa do financiamento de campanha segundo os setores da economia, obtido pela colunista Sonia Racy, mostra bancos em segundo lugar no ranking das doações, atrás somente das empreiteiras, que contribuíram com mais de R$ 200 milhões.


Os números se referem a doações a partidos, a comitês financeiros de campanha e a candidatos ao Congresso, às Assembleias Legislativas, aos governos estaduais e à Presidência da República - nesse último caso, apenas os dados de Marina Silva (PV) são integrais.


Os dados parciais mostram que os bancos fizeram 51% de suas contribuições às direções nacionais e estaduais de partidos. Nesse caso, o dinheiro é redistribuído pelos partidos para o caixa dos candidatos, sem que se possa fazer a conexão de quem doou para quem - são as chamadas doações ocultas. Apenas 32% dos recursos foram distribuídos diretamente a candidatos, e o restante a comitês de campanha.


Maiores financiadores. Até o momento, o Bradesco aparece como o líder no ranking de doações do setor financeiro: foram R$ 45 milhões - total que inclui contribuições de outras duas empresas do grupo, o Bankpar e o Banco Alvorada.


Em segundo lugar está o BMG, com R$ 29 milhões, mais do que o dobro do terceiro colocado, o Itaú Unibanco, com R$ 14 milhões.


O BMG foi investigado no escândalo do mensalão, em 2005, por ter feito empréstimos ao PT e a empresas do publicitário Marcos Valério sem exigir garantias adequadas e observar outras regras do Banco Central.


Das maiores contribuições individuais feitas pela instituição, grande parte se concentrou em Minas Gerais, Estado onde está sediado. O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT), que concorreu ao Senado e foi derrotado, recebeu R$ 500 mil. Outros R$ 300 mil foram destinados a Aécio Neves (PSDB), ex-governador e senador eleito. Hélio Costa (PMDB) e Antonio Anastasia (PSDB), que disputaram o governo do Estado, receberam R$ 500 mil e R$ 504 mil, respectivamente.


As doações do BMG para comitês e partidos, que beneficiaram candidatos cuja identidade não é de conhecimento público, foram dirigidas tanto para governistas como para oposicionistas. Campanhas do PSDB em três Estados - Minas Gerais, Tocantins e Pernambuco - receberam R$ 3,1 milhões. O PT foi beneficiado com R$ 2,2 milhões, metade disso para a direção nacional do partido e metade para comitês em Minas e São Paulo.


DEM e PMDB receberam somas ainda mais vultosas do BMG - R$ 4,5 milhões e R$ 3,2 milhões, respectivamente.


Governadores. O mineiro Aécio Neves recebeu R$ 500 mil do Itaú Unibanco - a maior contribuição individual feita pela instituição. Seu adversário Fernando Pimentel ficou com R$ 300 mil. A mesma quantia foi direcionada a Marta Suplicy (PT), Delcídio Amaral (PT) e Tasso Jereissati (PSDB), candidatos ao Senado em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Ceará, respectivamente. De todos os citados, apenas Pimentel e Tasso não foram eleitos.


O Itaú Unibanco também contribuiu com R$ 1 milhão para cada um dos dois principais candidatos ao governo do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e Aloizio Mercadante (PT). Outros candidatos a governador que tiveram parte da campanha financiada pela instituição foram Sérgio Cabral (PMDB-RJ), com R$ 700 mil, Antonio Anastasia (PSDB-MG), com R$ 700 mil, Beto Richa (PSDB-PR), com R$ 500 mil, e Osmar Dias (PDT-PR), com R$ 500 mil.


Outros setores, O mapa do financiamento de campanha revela ainda doações de R$ 67,5 milhões do setor de siderurgia e mineração - concentradas nas empresas Vale, Gerdau, Usiminas e Votorantim, Da área de química e petroquímica saíram pelo menos R$ 25 milhões, principalmente da Braskem (R$ 8,8 milhões) e da Suzano (R$ 7,5 milhões). 


http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101114/not_imp639779,0.php

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Novos moradores

 
Estes são os novos moradores, meus novos companheiros! À esquerda, Rashii (ele) e Xiao (ela), à direita
É imensa a alegria de tê-los!!!!!

Cúpulas, versões e verdades

O jornalista Clovis Rossi publicou em seu Blog "Janela para o Mundo", o texto com o título acima, onde faz uma sincera análise das limitações impostas ao trabalho dos jornalistas e indica que seu sonho "é que os líderes decidam que sejam transmitidas ao vivo e em cores todas as cúpulas".

Defende o direito de cada cidadão em ter a oportunidade de ouvir e analisar as posições que 'o líder" está defendendo nas reuniões.

No início do texto, o jornalista cita a definição de reportagem que ouviu de Carl Bernstein: 'Reportagem é a melhor versão da verdade possível de se obter'.

boa leitura!


"Cada vez mais me parece sábia a definição de reportagem que ouvi anos atrás, em palestra na USP, do jornalista norte-americano Carl Bernstein, um dos dois repórteres que estourou o célebre caso Watergate, o que levou ao afastamento do presidente Richard Nixon.


'Reportagem é a melhor versão da verdade possível de se obter', dizia Bernstein.

Sábia observação por, pelo menos, dois motivos:


1 - Começa por admitir quase explicitamente que não existe uma VERDADE, assim em maiúsculas, como se fosse emitida por Deus, qualquer que seja o seu Deus.

2 - Termina por admitir que boa parte do que sai nos jornais não é testemunhado diretamente, ao vivo, por qualquer jornalista. São eventos a portas fechadas, dos quais os jornalistas recuperam depois uma "versão da verdade".

Esta será tanto melhor quanto mais numerosas e confiáveis forem as fontes de cada jornalista.


Pegue agora um exemplo prático do momento: a cúpula do G20 em Seul. Os jornalistas não chegam nem perto das reuniões. Ou melhor, chegamos perto (o centro de imprensa funciona no mesmo COEX, o centro de exposições e congressos principal da Coreia, em que estão os líderes). Mas não perto o suficiente para ouvir qualquer coisa das discussões.

Aí, no encerramento (sexta-feira, no caso), sai um documento oficial que é a 'verdade' que os líderes acharam conveniente pôr no papel. Como é óbvio, há dois defeitos aí:


1 - A linguagem diplomática, inevitável nessas ocasiões, é sempre acolchoada para esconder divergências. E não raro é também elíptica. Não vai direto ao ponto de forma a permitir que cada país se sinta contemplado pela mágica da retórica.


2 - Jamais os comunicados oficiais relatam os debates tal como eles de fato se deram, especialmente quando são ásperos. Não fosse a pouco usual presença de câmeras e microfones numa cúpula em Santiago do Chile, jamais teria vazado a famosa frase do rei Juan Carlos da Espanha para o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aquela 'por qué no te callas?'.


É claro que sempre há uma fonte (ou várias) a que se pode recorrer para traduzir a linguagem cifrada dos comunicados. Mas a tradução só será correta ou, pelo menos, não enviesada, se a fonte tiver plena noção de que é dever do funcionário público prestar contas ao público e sabe que a mídia é, em geral, apenas a intermediária entre um e outro.


Tudo somado, meu sonho (de cidadão, não de jornalista porque, nesta última condição, me defendo razoavelmente bem) é que os líderes decidam que sejam transmitidas ao vivo e em cores todas as cúpulas


Loucura? Eles não estão aqui em Seul para defender, supostamente, o meu, o seu, o nosso interesse? Então, por quê diabos eu não posso julgar por mim mesmo, acompanhando os debates, se o estão fazendo direitinho ou não?"

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/829122-cupulas-versoes-e-verdades.shtml

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Hipopótamo salva-vidas

Turistas em um safári na África ficaram boquiabertos ao testemunhar um hipopótamo resgatando outros animais durante a travessia de um rio infestado de crocodilos.

Os visitantes tinham ido ver a migração de um grupo com milhares de gnus, que viaja entre o Quênia e a Tanzânia em busca de novos pastos.

Durante a dramática travessia do rio Mara, uma mãe gnu foi separada de seu filho, que foi levado pela correnteza. Um hipopótamo fêmea que observava tudo perto dali foi em direção ao bebê gnu e o empurrou gentilmente até à margem.


Depois de observar travessia de rio cheio de crocodilos, hipopótamo resgata filhote de zebra
Lemala Camps registrou a mamãe hipopótamo observando o filhote de zebra após o resgate
Apenas dez minutos depois, o mesmo hipopótamo viu uma pequena zebra lutando para cruzar o rio e, novamente, a ajudou a atravessar a forte torrente.

EPISÓDIO RARO
Os hipopótamos não são geralmente descritos como agressivos, a não ser quando acham que seu território está sob ameaça.

"Esta situação em particular é muito rara, mas essa parte do rio Mara é conhecida pela ocorrência de episódios incomuns, já que é ali que os gnus cruzam o rio cheio de crocodilos", disse David Spooner.

"No início, nosso guia Abdul Karim e os hóspedes acharam que o hipopótamo iRIA atacar, mas aí eles perceberam que eram os instintos maternos surgindo no hipopótamo fêmea quando ele viu o bebê gnu e o perigo representado pelos crocodilos", conta Spooner.

"O amor maternal é tão forte que pode até ultrapassar a barreira da espécie", disse o guia Abdul Karim.

Guias também registraram o episódio e descreveram os resgates realizados pelo hipopótamo como "milagrosos" em websites.

http://www1.folha.uol.com.br/bbc/829095-hipopotamo-salva-vidas-resgata-filhotes-de-gnu-e-zebra-em-rio.shtml

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Bolsa-Família ao mundo

Marc Margolis - O Estado de S.Paulo 07 de novembro de 2010 0h 00

Café colombiano, carne argentina e Bolsa-Família. Que têm em comum esses itens tão dispares do nosso dia a dia? São todas exportações autenticamente latino-americanas. Quem diz é Marcelo Neri, Diretor de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Ao esmiuçar os dados, ele mostrou ao país, e ao mundo, a importância desse brasileiríssimo programa para combater a pobreza absoluta como também para reduzir o igualmente brasileiríssimo abismo entre ricos e pobres.

Até ali, nada de novo. Graças parcialmente a essa iniciativa tucano-petista a escancarada desigualdade social no país já começa a melhorar. Há quem chame isso do velho assistencialismo de roupa moderna, enquanto outros perguntam: por que festejamos quando milhões ingressam na Bolsa-Família, mas não se tem notícia de quem sai? Essa é uma polêmica para outro dia. O interessante agora é que o Bolsa-Família faz parte da última geração de políticas de combate à pobreza - criada, talhada ou aperfeiçoada em países de renda modesta - que está ganhando o mundo. A súbita popularidade dessas iniciativas oferece uma oportunidade inédita e um desafio colossal, para o Brasil e, quem sabe, o restante do mundo também.


Se as redes de proteção social estão ruindo nos países mais ricos, o restante do mundo está apenas começando a tecer as suas. No ano passado, no breu da recessão global, a China lançou um ambicioso esquema de previdência rural que contabiliza 55 milhões de chineses e deve cobrir um quarto da zona rural até o final do ano. A Índia não deixou por menos e também está construindo esquema previdenciário para seus 80 milhões de idosos. Governos de Malawi, Turquia e da província indiana de Andhra Pradesh oferecem apólices de microsseguro contra desastres às populações mais vulneráveis. E o carro-chefe dessa nova investida social são os programas de transferência de renda. São 45 os países com versões diversas da Bolsa-Família, repassando pequenas quantias às famílias que mantêm seus filhos na sala de aula e com as vacinas em dia.


São pequenas parcelas de uma aposta gigantesca, pois os novos benefícios nascem como direitos adquiridos. Uma vez concedidos, são imensamente difíceis de cortar ou desfazer. (Reparem só os carros incendiados nas ruas da França). Na mão errada, podem criar dívidas explosivas. Se nenhuma reforma for feita, as despesas previdenciárias mundiais chegarão a 3% PIB global até 2030, e outros tantos para as despesas de saúde, segundo o Fundo Monetário Internacional. "Não há nenhum país no mundo que possa continuar a gastar nesse ritmo", disse Carlo Cottarelli, diretor do departamento fiscal do FMI.


Como as nações de renda média, senão pobres, conseguirão atender aos bilhões de necessitados e ainda evitar a armadilha da dívida que ameaça até os mais ricos? Segundo o clichê, os países em desenvolvimento não enfrentam a crise do colapso do estado do bem-estar, pois não têm nada para colapsar. Os pobres que se defendam. Mas o esforço hoje de construir a rede de proteção é consequência lógica da mudança do eixo da prosperidade e poder global.


Pela primeira vez em décadas, a maioria dos países na Ásia e na América Latina, acostumados a viver de uma emergência à outra, hoje cresce com equilíbrio fiscal e inflação sob controle. Enquanto a dívida acumulada dos emergentes crescerá 13% até 2015, também devem colaborar com 54% do crescimento global, diz Eswar Prasad do Brookings Institute. Assim, fazem parte da solução e não mais do problema da economia global.


Os novos consumidores das economias turbinadas pressionam pela parte. Mas como estender a bilhões uma rede ampla de proteção sem quebrar o país ou torrar dinheiro na fogueira da burocracia? Com a Bolsa-Família, em parte. Programas de transferência condicional de renda surgiram nos anos 90, no Chile e México e fincaram raízes profundas no Brasil, com um quarto do país beneficiado. Os bolsistas são facilmente identificados por meio de cadastros informatizados, sacam seu dinheiro com cartão bancário e não dependem de padrinhos políticos ou tradicionais gigolôs da assistência. Melhor, custam pouco ao Tesouro. Mexico, Chile e Brasil gastam cada um 0,5% do PIB ou menos para ajudar milhões.


Por isso mesmo, esses programas espalham-se, uma genuína tecnologia latino-americana agora presente na Ásia, no Leste Europeu, na África e até em Nova York. Não são nenhuma panaceia. Governos podem facilmente ligar a torneira de assistência ou inflar o rol dos bolsistas às vésperas de eleições. As novas redes de proteção ainda convivem com programas tradicionais (como a Previdência Social), que custam uma fortuna e premiam poucos, onerando a nação. Mas a oportunidade do mundo está aí: ajudar aqueles no final da fila sem destruir a riqueza de todos. "Vamos aprender com os erros dos outros", disse o ministro brasileiro da Previdência Social, Carlos Gabbas, após os protestos na França. Nada como gás lacrimogêneo e quebra-quebra para focar a mente dos poderosos.

o autor é colunista do Estadão e correspondente da Newsweek.
http://www.estadao.com.br/noticia_imp.php?req=not_imp636136,0.php

sábado, 6 de novembro de 2010

Não subestimem Dilma Rousseff

A afirmação é de João Santana, responsável pelo Marketing da campanha de Dilma.
Em uma de suas raras entrevistas, Santana, 57 anos, falou à Folha na última quarta-feira, em sua casa de veraneio próxima a Salvador, na Bahia. Fez uma ampla análise do processo eleitoral brasileiro e da última campanha.
Ele diz que "a substituição de Lula por Dilma foi como a troca de Pelé por Amarildo na Copa de 1962. Mas o Amarildo entrou e deu conta do recado" e que a presidente "Dilma tem tudo para ocupar esse espaço", ao referir-se ao vazio que a saída de Lula da Presidência.
abaixo a transcrição da longa entrevista; uma autêntica aula sobre as idiossincrasias da política e dos políticos brasileiros, em particular.



A seguir, trechos da entrevista de Santana à Folha:


Folha - O sr. fez o marketing das duas últimas campanhas presidenciais vitoriosas no Brasil. Quais as diferenças e semelhanças?
João Santana - Foram campanhas profundamente dessemelhantes.

Destaco alguns dos pontos que tiveram em comum: o profundo desdém da oposição aos candidatos Lula e Dilma nas pré-campanhas; o susto que eles tomaram no início dos dois primeiros turnos com o crescimento rápido e vigoroso dos nossos dois candidatos; a falsa ilusão de vitória que eles criaram na passagem do primeiro para o segundo turno, e a desilusão e desfecho finais.
Entre os vários pontos de dessemelhança, eu gostaria de frisar apenas um, e que diz respeito diretamente à minha área: apesar das aparências, a campanha de 2010 foi de uma complexidade estratégica, e principalmente tática, imensamente maior do que a de 2006. Eu diria, até, que do ponto de vista do marketing, esta talvez tenha sido a campanha presidencial mais complexa dos últimos tempos no Brasil.


A percepção da oposição, então, segundo sua avaliação, foi equivocada?
Na pré-campanha de 2006, a oposição imaginou, erroneamente, que Lula estivesse destruído com o escândalo do mensalão. Imaginou que um discurso udenista, neurótico e tardio, pudesse influenciar amplas camadas da população na campanha. Não perceberam o incipiente, porém já vigoroso, movimento de ascensão social e de gratificação simbólica e material que vinha sendo produzido pelo governo Lula.

Na pré-campanha de 2010, houve um erro porque menosprezaram o valor pessoal e o potencial de crescimento de Dilma e, também, a capacidade de transferência de Lula. É o período da arrogante, equivocada e elitista 'teoria do poste'.
O grande crescimento que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no final das pré-campanhas, e especialmente no início do primeiro turno, deixou-os atordoados. Só se recuperaram um pouco quando foram favorecidos por fatores extracampanhas, o caso dos aloprados e o escândalo Erenice.


Por que Dilma não venceu no 1º turno? Lembro-me que as previsões internas eram de que ela teria de 56% a 57% dos votos...
Por vários fatores, alguns já facilmente percebidos e explicados. Outros que levarão ainda algum tempo para serem corretamente analisados. Começo indo na contramão da maioria dos analistas: o eleitorado brasileiro é, hoje, um dos mais maduros do mundo. E cada dia sabe jogar melhor.

Uma das provas desse amadurecimento é a consolidação, cada vez maior, da "cultura de segundo turno" nas eleições presidenciais. E ela atua, paradoxalmente, junto com a consolidação de um outro comportamento aparentemente antagônico: a consagração do princípio da reeleição. O de deixar um bom governo continuar, mas, ao mesmo tempo não aceitar passivamente tudo o que ele faz. Este conflito é uma forte demonstração de amadurecimento do eleitor brasileiro. No fundo é aquele maravilhoso conflito humano entre a reflexão e a decisão, entre a fé a descrença, entre a confiança e a suspeita, entre a entrega e a autodefesa.
Nas últimas eleições, parte do eleitorado tinha um fabuloso atalho, que era a candidatura Marina, para praticar o "voto de espera", o voto reflexivo. E utilizou este ancoradouro, este auxílio luxuoso que era a candidatura Marina, para mandar alguns recados para os dois principais candidatos. Por essas e por outras razões houve segundo turno.


Que recados foram estes que os eleitores mandaram para Dilma e para Serra?
No nosso caso foi: "Olha, eu aprovo o governo de vocês, mas não concordo com tudo que acontece dentro dele; adoro o Lula mas quero conhecer melhor a Dilma".

No caso do Serra: "Seja mais você mesmo, porque desse jeito aí você não me engana; mas afinal, qual é mesmo esse Brasil novo que você propõe?; me diga lá: você é candidato a prefeito, a pastor ou a presidente?".


Os candidatos, no segundo turno, deram respostas eficientes a esses recados dos eleitores?
Nenhuma campanha, em nenhum lugar do mundo, responde a todas as perguntas, preenche todas dúvidas, nem atenua, completamente, os conflitos racionais e emocionais dos eleitores. Uma campanha será sempre um copo com água pela metade, meio vazio pra alguns, meio cheio pra outros.

No nosso caso, acho que respondemos algumas perguntas. A prova é que não apenas crescemos quantitativamente, como houve uma melhoria, mais que significativa, na percepção dos atributos da nossa candidata.


Em que se sustenta a tese de que essa foi a mais complexa campanha, estratégica e taticamente dos últimos tempos?
Por várias características atípicas, originais e exclusivas desta campanha. Para não me alongar muito, vou comentar apenas alguns fatores do nosso lado. Nós tínhamos um presidente, em final de mandato, com avaliação recorde, paixão popular sem limite e personalidade vulcânica.

Uma caso único não só na história brasileira como mundial. Uma espécie de titã moderno.
Do outro lado, tínhamos uma candidata, escolhida por ele, que era uma pessoa de grande valor, enorme potencial, porém muitíssimo pouco conhecida.
Tínhamos o desafio de transformar em voto direto, e apaixonado, uma pessoa que chegava à primeira cena por força de uma escolha indireta, quase imperial. Tínhamos que transformar a força vulcânica de Lula em fator equilibrado de transferência de voto, com o risco permanente da transfusão virar overdose e aniquilar o receptor.
Tínhamos a missão de fazer Dilma conhecida e ao mesmo tempo amada; uma personagem original, independente, de ideias próprias e, ao mesmo tempo, uma pessoa umbilicalmente ligada a Lula; uma pessoa capaz de continuar o governo Lula mas também capaz de inovar.
Tudo isso dentro de um curtíssimo prazo e dentro do cenário de uma das maiores, mais vibrantes e maravilhosamente mal construída democracias do mundo, que é a democracia brasileira. E que tem um dos modelos de propaganda eleitoral, ao mesmo tempo, mais permissivo e restritivo do mundo; um calendário eleitoral hipocritamente dos mais curtos, e, na prática, dos mais longos do mundo. Isso é dose. É um coquetel infernal.


O que mais facilitou e atrapalhou o trabalho?
Acho que o que mais nos ajudou foram as lendas equivocadas que a oposição, secundada por alguns setores da mídia, foi construindo sistematicamente. E se aferrando desesperadamente a elas, mesmo que os fatos fossem derrotando uma após outra.

No início, construíram quatro lendas eleitorais: que Lula não transferia voto, que Dilma ia ser péssima na TV, que Dilma ia ser um desastre nos debates e que Dilma, a qualquer momento, iria provocar uma gafe irremediável nas entrevistas. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário.
Construíram, pelo menos, quatro lendas biográficas: que Dilma tinha um passado obscuro na luta armada, que era uma pessoa de currículo inconsistente, que teve um mau desempenho no governo Lula, e que o fato de ter tido câncer seria fatal para a candidatura. Nada disso se confirmou.
E construíram lendas políticas. As principais eram que Dilma não uniria o PT, não teria jogo de cintura para as negociações políticas e que não saberia dialogar com a base aliada. Outra vez, tudo foi por terra.
Ora, com tantas apostas equivocadas, o resultado não podia ser outro. Se você permitir, eu gostaria adiante de comentar sobre novas lendas equivocadas que já estão começando a construir em relação ao futuro governo Dilma.


Na fase final, a oposição apostou numa guerra moral e religiosa, no mundo da ética e dos valores. Isso não atrapalhou?
De forma irreversível, não. Acho, inclusive, que no final o feitiço virou mais contra o feiticeiro. As questões do aborto e da suposta blasfêmia foram apenas vírgulas que ajudaram a nos levar para o segundo turno. Repito, apenas vírgulas.

O caso Erenice foi o mais decisivo porque atuou, negativamente, de forma dupla: reacendeu a lembrança do mensalão e implodiu, temporariamente, a moldura mais simbólica que estávamos construindo da competência de Dilma, no caso a Casa Civil.
Por motivos óbvios, vínhamos ressaltando, com grande ênfase, a importância da Casa Civil. Na cabeça das pessoas, a Casa Civil estava se transformando numa espécie de gabinete paralelo da presidência. E o escândalo Erenice abalou, justamente, esse alicerce.
Voltando à questão da moral religiosa: como a oposição abusou da dose, provocou, no final, rejeição dos setores evangélicos que interpretaram o fato como jogada eleitoral e afastou segmentos do voto independente, principalmente de setores da classe média urbana, que se chocou com o falso moralismo e direitização da campanha de Serra.


Mas essa opção às vezes à direita da oposição, em certa medida, era algo esperado. Ou não?
Eu alertei sobre isso, inclusive, em um seminário interno da Folha que participei em maio. Este é um fenômeno que infelizmente vem acontecendo, na América Latina, com alguns setores desgarrados, que antes de autointitulavam de socialdemocratas e se inclinaram perigosamente para a direita.

Passaram a utilizar, em suas campanhas, um mix de técnicas do Partido Republicano americano, mais ferramentas da direita espanhola e de operadores antichavistas da Venezuela.
Eu me defrontei com este aparato na campanha que fiz para o presidente Mauricio Funes, em El Salvador. Fomos vítimas de uma das mais insidiosas e obscuras campanhas negativas. Mas vencemos. O ideário é o mesmo, os conceitos manipulados semelhantes, as técnicas de medo iguais. O que varia é a dosagem e os instrumentos.
Aqui a direitização ficou mais circunscrita a certos tabus morais e religiosos. Mas também trafegou, principalmente na internet, no obscurantismo político de pior extração. Quem estuda este fenômeno e viu um vídeo que circulou na internet, intitulado a 'Dama de Vermelho', sabe do que estou falando. Por sinal, este vídeo é uma réplica de alguns que foram produzidos contra Mauricio Funes, em El Salvador, e a favor da campanha de Felipe Calderón no México.


No início da entrevista, o sr. disse que iria comentar o que considera 'novas lendas equivocadas' projetadas para o governo Dilma. Do que se trata?
Eu acho necessário um humilde alerta: não subestimem Dilma Rousseff. Este alerta vale tanto para opositores como para apoiadores da nova presidente.

Dentro e fora do Brasil já começam a pipocar análises apressadas de que Dilma dificilmente preencherá o grande vazio sentimental e simbólico que será deixado por Lula. E que este será um problema intransponível para ela. Bobagem.
Não há dúvida de que a ausência de Lula deixa uma espécie de vazio oceânico. Lula é uma figura única, que uma nação precisa de séculos pra construir. Mas Dilma, em lugar de ser prejudicada por este vazio, será beneficiada por ele. Basta saber aproveitar --e acho que ela saberá-- a oportunidade única e rara, que tem nas mãos, de se tornar conhecida e amada ao mesmo tempo.
É preciso também estar atento para o fato de que as paixões populares são múltiplas porque o povo não é politicamente monogâmico. O povo é, por natureza, sincretista e politicamente polígamo. E há na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia, que chamo metaforicamente de "cadeira da rainha", e que poderá ser ocupada por Dilma.
A República brasileira não produziu uma única grande figura feminina, nem mesmo conjugal. Dilma tem tudo para ocupar esse espaço. O espaço metafórico da cadeira da rainha só foi parcialmente ocupado pela princesa Isabel. Para um homem sim, seria uma tarefa hercúlea suceder a Lula. Para uma mulher, não. Em especial, uma mulher como Dilma. Lula sabia disso e este talvez seja o conteúdo mais genial da sua escolha.


Quando ficou claro que haveria 2º turno? No dia?
No dia da apuração. Havia fortes indícios de perda de substância da nossa candidata, porém, os indicadores nos davam uma relativa segurança de que ganharíamos no primeiro turno.

Ao contrário da eleição de 2006, quando eu fui o primeiro a alertar o presidente Lula de que iríamos para o 2o turno, desta vez eu fui um dos últimos a admitir isso. Acompanhando a apuração no Alvorada, ao contrário de 2006, eu era um dos poucos que ainda acreditava que ainda ganharíamos por uma margem estreita.


A receita do 2º turno deste ano se assemelha à de 2006: acusar os tucanos de serem privatistas e contra o patrimônio nacional. Mas desta vez o efeito não foi tão forte como há quatro anos. Essa fórmula está perto do esgotamento?
É reducionismo dizer que a receita do segundo turno foi a de acusar os tucanos de privatistas. Se você rever os programas e comerciais, vai constatar que discutimos modelo de política econômica, políticas sociais, modelo de desenvolvimento, entre outros temas.

Fui o responsável pela introdução do tema privatizações em 2006. Na verdade, não estava muito apaixonado pela ideia de utilizá-lo outra vez nesta campanha. Inclusive porque, ao contrário de certos homens marketing, não gosto de repetir fórmulas. Mas havia um consenso, na cúpula da campanha, de que o tema ainda estava vivo. Meu convencimento final veio quando decidimos acoplá-lo, de forma mais que justa, ao futuro do pré-sal.


Essa abordagem sobre 'tucanos privatistas X petistas defensores do patrimônio nacional' não seria uma exploração indevida do imaginário popular?
Já falei sobre isso e não fui muito bem interpretado. Tucanos e petistas divergem, de fato, profundamente neste tema. A sociedade brasileira sempre acompanhou com o máximo de interesse, receio e com muita cautela essa discussão.

O debate continua vivo. Por que é manipulação reacender ou esquentar esse debate? A propaganda eleitoral brasileira é um espaço bastante democrático, e mais que apropriado para este tipo de discussão. Nela, cada um pode expor seu pontos de vista e estabelecer o contraditório. Com fatos e argumentos. Sem medo e sem timidez.


Por que o Vox Populi, contratado pela campanha de Dilma, não captou a queda nas pesquisas de maneira mais precisa?
Essa é uma pergunta que o instituto pode responder melhor do que eu.



Quando as pesquisas diárias ('trackings') começaram as ser feitas? E os grupos de análise qualitativa? Dilma assistiu a alguns desses grupos?
Os trackings começaram uma semana antes da propaganda eleitoral. Os grupos de pesquisas qualitativas começaram também nesse período, e eram quase diários.

No segundo turno, os grupos de qualis eram diários. Eram 12 grupos, distribuídos pelas várias regiões do país. Em São Paulo, eram sempre quatro grupos, variando entre capital e interior. Duas empresas faziam esse trabalho. Em São Paulo, a Oma Pesquisas. No restante do país, a Síntese. A candidata Dilma não assistiu aos grupos por falta de tempo e de interesse direto.


Foi um erro a forma como Lula fez alguns comícios na parte final do 1º turno, falando em extirpar o DEM da política e dizendo que 'a opinião pública somos nós'?
Como eu já disse, o presidente tem uma personalidade vulcânica. Sua intuição emocional faz com que ele acerte bastante, e às vezes cometa erros. Mas o saldo nesta e em outras campanhas sempre foi muito positivo.



Mas houve uma certa overdose de Lula no final do 1º turno, com ele aparecendo não de forma exaltada em comícios?
Na propaganda eleitoral, não. Desde o início, eu sabia que uma das coisas mais difíceis era a modulação da presença de Lula. Fiz um desenho estático que considero correto. Dividi a campanha com base nos 45 dias de TV e rádio em três fases iguais de 15 dias cada. A primeira, consistiu em colar bastante Lula a Dilma. Depois, seria preciso atenuar um pouco a presença dele no meio da campanha. E, por fim, voltar a colá-los fortemente no final.

Na primeira fase, era preciso mostrar aos eleitores que havia afinidade, respeito e confiança entre eles. Consumado isso em 15 dias, como eu esperava, com êxito, era então necessário reforçar a identidade própria de Dilma. Isso só seria possível se as pessoas conseguissem enxergá-la sem a sombra luminosa de Lula. Assim, os segundos 15 dias da campanha tiveram a troca da persona Lula pela intensificação da representação simbólica do governo Lula.
Só que no final dessa segunda fase ocorreu uma trágica coincidência: o escândalo Erenice.


E o que foi feito?
Fomos forçados a fazer uma reaproximação entre Lula e Dilma de emergência.



Mas Lula não se excedeu nos comícios?
De certa forma, sim. Mas isso é até explicável. A presença de um político no palanque permite certo tipo de arroubo que a propaganda eleitoral não comporta. Acontece que alguém quando está no palanque esquece que trechos editados de sua fala podem aparecer em telejornais de grande audiência.



Na passagem do 1º para o 2º turno, ele deu uma sumida. Por quê?
Foi por um período muito curto. Foi intencional por dois motivos. Primeiro, porque era necessário dar um certo refresco para a imagem do presidente por causa do uso excessivo em todas as campanhas em todas as unidades da Federação. Os candidatos em todos os níveis usaram e abusaram da imagem de Lula de forma excessiva e até irresponsável como nunca ocorrera antes.

Segundo, estávamos fazendo um reposicionamento estratégico, e antes que as transições conceituais ficassem claras, era importante preservar o nosso principal trunfo, que era o presidente. Foi uma operação tão delicada e corajosa que o próprio presidente Lula, na passagem do primeiro para o segundo turno, chegou a me questionar a respeito.


Muitos temeram a derrota nessa fase?
Temer a derrota é inerente a qualquer um envolvido em uma campanha. Sobretudo quando há uma quebra de expectativa, que foi o que ocorreu com a ida para o segundo turno.

De certa maneira, esse mesmo sentimento perpassou a campanha de 2006, no início daquele segundo turno.


Quando Dilma teve câncer, o que a área de marketing da pré-campanha fez?
Primeiro, foi um susto. Uma situação insólita. Iniciar uma campanha com uma candidata pouco conhecida e enfrentando um desafio dessa magnitude. Só havia então um caminho que era buscar o máximo de transparência. Todo o tratamento foi ampla e livremente noticiado pela mídia. Num caso como este não se pode, nem se deve inventar ou maquiar nada. A verdade é o melhor remédio. Até porque ela sempre prevalece.



A sua contratação ocorreu a partir de quando?
O PT me contratou para dar consultoria e fazer as propagandas partidárias em 2009.



Como Dilma reagiu à necessidade de fazer operação plástica no rosto e na região do pescoço, mudar o vestuário, treinar oratória, aceitar cabeleireiro e maquiadora sempre perto?
Variou. A decisão de fazer a operação plástica, por exemplo, foi dela. Como toda mulher, quando se trata de estética, ela gosta de ela mesma tomar iniciativa. Ou, pelo menos, de pensar que foi dela a decisão.



Por que Dilma tem dificuldade para falar em público, às vezes não completando um raciocínio?
Durante toda a sua vida, Dilma foi treinada mais para fazer do que para falar. Além disso, ela é daquelas pessoas que tem raciocínio mais rápido do que a verbalização. E algo ainda mais complexo: imagine uma pessoa que nunca foi candidata a nada inaugurando sua vida eleitoral sendo candidata a presidente de um país do tamanho do Brasil?

Tudo isso provoca um tipo de tensão e ansiedade que obviamente repercute na maneira de se comunicar. Porém, o mais surpreendente, é que Dilma superou todos esses obstáculos de maneira brilhante. O mérito maior é dela.


Como era sua equipe na campanha?
Tive a felicidade de formar um "dream team". Cerca de 200 pessoas estiveram envolvidas. Alguns já trabalhavam comigo há muito anos como Eduardo Costa, meu braço direito e um dos grandes responsáveis pelo sucesso da campanha. Outros se reaproximaram e foram fundamentais como Marcelo Kértesz, Lô Politi e Giovani Lima, como diretores de vídeo. Sem falar da presença essencial de Mônica Moura, minha mulher e sócia.



Como presidente Lula interagiu com Dilma durante a campanha?
Em termos presenciais, o contato foi muito menor do que quando ela estava no governo.

Haveria alguma forma de o PSDB usar de maneira positiva, em nível nacional, a imagem de FHC em uma campanha presidencial?
Num período muito curto de campanha, seria muito difícil, quase impossível. Se eu estivesse no lugar de Luiz Gonzalez [publicitário da campanha de José Serra], que considero um dos melhores marqueteiros do Brasil, talvez eu fizesse o mesmo que ele fez.

O uso da imagem de FHC só seria viável eleitoralmente depois de um trabalho consistente ao longo de um período de vários anos. Seria preciso recuperar uma narrativa do governo tucano, que teve méritos, mas ficou com a imagem avariada por causa do final da administração FHC.
Creio ter havido um desleixo da parte do próprio Fernando Henrique, com uma atitude olímpica. Quem sabe, por vício acadêmico, ele esperava um resgate histórico que viesse apenas por gravidade. Mas, no seu caso, seria necessário mais do que isso. Ele e seu partido teriam de se esforçar para defender a imagem daquela administração, deixando de lado a timidez ou o medo que demonstram ter.


Teria sido possível neste ano eleger José Serra ou algum candidato de oposição? Com qual estratégia?
Muito improvável. A menos que cometêssemos alguns erros e a oposição milhões de acertos



Aécio Neves teria tido condições de vencer Dilma?
Poderia ter feito uma campanha mais bonita e mais vibrante do que Serra. Mas mesmo assim seria derrotado.



Como foi e com qual frequência se deu neste ano sua relação com o publicitário de Serra, Luiz González?
Sempre tivemos uma boa relação. Admiro o González tanto por sua competência como por seu caráter. E é sempre uma parada dura enfrentá-lo numa campanha. Nos falamos várias vezes durante esta campanha para negociarmos regras de debates e outros detalhes envolvendo participações dos nossos candidatos.

A negociação mais insólita foi quando liguei, pra ele, na véspera do Círio de Belém, sugerindo que abríssemos mão da propaganda eleitoral na TV no dia da festa, no Pará. Ele pediu pra consultar o Serra e topou. Tenho certeza que os paraenses gostaram muito desta atitude e Nossa Senhora de Nazaré, com certeza, abençoou os dois candidatos.


Esta eleição teve dez debates. Quais foram os mais úteis eleitoralmente? Os da Globo, pela alta audiência?
Todos foram importantes, mas nenhum decisivo.



Todos os debates foram engessados por regras impostas pelos candidatos e seus assessores. O que seria necessário para haver debates mais livres?
Os debates, como algumas regras da propaganda eleitoral, têm de ser revistos. O problema dos debates é que dependem da vontade dos candidatos. E vontade dos candidatos é a coisa mais difícil de administrar.



E no caso do horário eleitoral, o que pode ser feito?
Eu acho que a lei de propaganda eleitoral é uma das mais modernas do mundo. Porém, há situações anômalas que devem ser corrigidas. Por exemplo, a legislação sobre pré-campanha. Outra, a legislação do segundo turno.

No caso do segundo turno, como está concebido, é uma violência contra os candidatos, contra os partidos, contra os eleitores e contra as equipes que produzem os programas eleitorais. Deveria haver menos propaganda, mais debates obrigatórios, mais liberdade de entrevistas nos meios de comunicação eletrônicos e a eleição em si ser mais próxima da do primeiro turno.


Qual foi a importância da internet na campanha?
Ao contrário do que se fala, a internet teve um papel importante nesta eleição. Pena que tenha sido usada, muito fortemente, para veicular campanha negativa raivosa, anônima e, muitas vezes, criminosa. Isso terminou por diminuir muito a credibilidade do material que circulava na web. Mas a cada dia o papel da internet será maior nas eleições brasileiras. E isso é muito bom para a disputa eleitoral e para o avanço democrático.



Nos EUA, a web é usada na difusão de propaganda negativa, mas também na arrecadação de fundos. Quando haverá isso aqui?
Como já disse, houve um predomínio de propaganda negativa. Mas a mobilização nas redes sociais foi também intensa. Esta é a grande chave, no futuro, para aumentar o impacto da web nas eleições.



Qual foi o saldo da contratação de técnicos que trabalharam na campanha da web de Barack Obama?
A participação deles ficou praticamente restrita à transferência de tecnologia e de ferramentas. Não participaram da estratégia nem da conceituação da campanha em nenhum nível. Mas são profissionais bem competentes em sua área.



Teria sido possível eleger algum outro ministro técnico como Dilma usando a mesma estratégia?
Acho que seria muito difícil. A escolha de Dilma foi uma das maiores provas da intuição e da genialidade política do presidente Lula. Eu tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a saber da decisão do presidente e a fazer estudos sobre isso, a pedido dele.

Desde o início ficou claro que a transferência de votos se daria de forma harmônica e fluídica. Está provado que a transferência, na maioria das vezes, se dá mais pelas características do receptor do que do doador. De todos os possíveis candidatos, Dilma reunia as melhores condições para isso. Era mulher, ocupava um papel-chave no governo, tinha passado e presente limpos, era competente, firme, corajosa, combativa e tinha fidelidade absoluta ao presidente.
Além disso, por causa do tipo de personalidade de Lula, era muito mais natural e com maior poder de sedução junto ao seu eleitorado, ele pedir voto para uma mulher do que para um homem.


]Em 2014, os parâmetros de exigência da população estarão elevados para outro patamar e o Bolsa Família terá menos importância?
Primeiro é bom esclarecer, que no campo da psicologia do voto, o Bolsa Família é percebido pelos seus beneficiários como um detalhe importante, porém um detalhe, de uma coisa ainda maior e mais forte para eles que é o olhar social do governo Lula.

O programa, em si, tem apelo eleitoral? Tem. Porém menos do que se apregoa. E, como já disse, não funciona de forma isolada. Acho que poucos governos, como o do presidente Lula, e, tenho certeza, o da presidenta Dilma, reúnem tantas condições de poder acompanhar o que você chama de elevação de parâmetros de exigência da população.
Na verdade é mais do que isso. Quando o governo Lula retirou 28 milhões de pessoas da miséria e levou 36 milhões para a classe média estava, ao mesmo tempo, dando vida digna e cidadania a estas pessoas, elevando seu nível de vida e, simultaneamente, elevando os seus 'parâmetros de exigência'. Ou seja, as políticas públicas de Lula e de Dilma são maiores do que qualquer tipo de pragmatismo eleitoral.


Se quiser vencer, o que deve fazer a oposição daqui até 2014?
Não me sinto apto a dar conselhos à oposição. Ela tem consultores mais competentes do que eu para isso.



O sr. foi convidado a continuar prestando assessoria de imagem e marketing para Dilma Rousseff?
A presidenta eleita não me falou nada sobre isso e eu tenho uma agenda internacional carregada, nos próximos três anos, que atrapalharia bastante um trabalho deste tipo.



Uma ala do PT, entre os quais José Dirceu e Fernando Pimentel, desejava a sua saída e a volta de Duda Mendonça. Como foi essa disputa?
É natural que na política, nos negócios e no amor as pessoas queiram se associar com quem têm afinidade. Até hoje, não sei exatamente quem participou dessa articulação. Só sei que foi um grupo muito pequeno e que não contava com o apoio da cúpula da campanha nem do PT. Lula e Dilma sempre me apoiaram integralmente. O ex-presidente do PT Ricardo Berzoini e o presidente atual da legenda, José Eduardo Dutra, sempre me deram todo apoio.



Quais são os seus planos profissionais a partir de agora?
Eu tenho muitos clientes fora do Brasil e provavelmente me dedique mais a eles, nos próximos dois anos. Estou examinando também, com carinho, uma proposta de sociedade de uma empresa americana de marketing político para atuação junto ao eleitorado latino, nos Estados Unidos.

Quero ver, também, se tenho tempo de terminar dois livros que estou escrevendo, um romance e outro sobre marketing político. Além disso, quero ver se volto a me dedicar à música.


Quanto o sr. cobrou para fazer a campanha de Dilma Rousseff?
O custo total da área de propaganda e marketing, incluindo as pesquisas qualitativas e as quantis estratégicas, foi de R$ 44 milhões.



O Brasil é o país latino-americano no qual as campanhas políticas são as mais caras?
O custo das campanhas no Brasil está diretamente relacionado ao tamanho do eleitorado, à força de sua economia e à qualidade e sofisticação do seu marketing eleitoral. Sem dúvida, um dos melhores do mundo.



Continua a existir uma imagem negativa dos marqueteiros. Esse é um problema de marketing que os principais envolvidos não conseguem solucionar?
Acho que esta suposta imagem negativa está circunscrita a determinados setores da sociedade que não entendem --ou não querem entender-- o verdadeiro papel do marketing político.

Para a maioria da população ocorre exatamente o contrário: há uma profunda curiosidade e atração pelo nosso trabalho. Assim como somos um país com dezenas de milhões de técnicos de futebol, estamos também nos transformando num país com milhões de marqueteiros.
É incrível como hoje todo mundo discute e "entende" de marketing político. Chega a ser pitoresco, nos grupos de pesquisa qualitativa, como eleitores de todas as camadas sociais comentam, opinam e desvendam os segredos do marketing. É uma escola de prática de política.


Há semelhanças entre a transferência de poder do russo Vladimir Putin para Dmitri Medvedev, em 2008, e agora no caso dos brasileiros Lula e Dilma?
Li sobre isso na mídia internacional. É um equívoco absoluto, uma leitura caricata e ligeira. A democracia no Brasil é mais complexa e sofisticada. Mas isso me faz lembrar uma história curiosa.

Como a eleição brasileira chama a atenção em vários países, no início de maio, um emissário não oficial do governo russo mandou um recado para a campanha de Dilma. Essa pessoa queria oferecer o que seria uma técnica que dizia ser infalível de transferência de votos baseada na experiência exitosa de Putin para Medvedev.
Demos muita risada e é claro que recusamos. Mas tenho a impressão que um ou outro integrante da nossa campanha chegou a ficar tentado em pelo menos ouvir o que os russos tinham a dizer. Mas é óbvio que nenhum contato foi feito, embora o episódio demonstre como era imprevisível para alguns a capacidade de Lula de transferir votos para Dilma.


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