Antonio Delfim Netto 19/04/2011
Tenho recebido algumas observações de economistas que respeito. Advertem-me que na minha vida profissional ativa sempre utilizei a matemática e que agora, na inatividade acadêmica, passei a "demonizá-la". Nada mais longe da verdade. Tenho procurado chamar a atenção para o uso abusivo dessa joia do pensamento humano. Como é belo, esteticamente, um teorema bem demonstrado! O que condeno, e me incomoda, é a economia bastarda que se esconde na matemática para passar a ideia de que é "científica". O que abomino é assistir à falta de cerimônia com que alguns economistas extraem conclusões de seus elegantes e irrelevantes modelos e as transformam em "recomendações" normativas (supostamente científicas!) para o exercício da política econômica no mundo real.
Um exemplo evidente dessa tendência é a discussão de políticas econômicas realizadas a partir da "contabilidade" do crescimento. Como é evidente, o "produto potencial" é uma variável não observável. Conhecemos inúmeros métodos diferentes de estimá-lo que produzem resultados distintos, o que não é desprezível para o custo social das políticas econômicas. Todos, não importa o grau de sofisticação (se com estatística baynesiana, filtros de toda natureza...), são apenas projeções do passado, isto é, das circunstâncias que o constituíram, dos estímulos a que foram submetidos os agentes econômicos e das contingências políticas que dominam a economia.
O método mais pedestre e mais utilizado é o da "contabilidade" do crescimento. Neste, como é óbvio, o produto "potencial" é o limite superior de uma suposta função de produção, que tem como argumentos os fatores de produção: o trabalho (horas trabalhadas, nível de educação e de saúde do trabalhador) que pode ser estimado razoavelmente e o capital (a disponibilidade de recursos naturais, de todo o estoque do trabalho passado congelado na infraestrutura, nos equipamentos de toda sorte). Este, a rigor, é imensurável, a não ser pela somação de seus valores. Para transformar esse valor num dado físico (porque é isso que a função de produção exige) há problemas tão complexos que os economistas, sabiamente, decidiram ignorar em lugar de resolver...
As funções de produção fazem mais sentido quando referidas a uma unidade concreta de produção, onde as formas de medida são mais tratáveis. Entretanto, a agregação dessas funções para construir a função que representaria o produto potencial exige condições tão restritivas (do ponto de vista matemático) que as tornam virtualmente inexistentes, como todos sabemos desde os anos 70 do século passado. Mas por que as funções agregadas parecem fazer sentido quando estimadas estatisticamente? Pela simples e boa razão, também conhecida por todos (e sempre convenientemente ignorada), que elas são apenas manipulação da identidade: o Produto Interno Bruto (PIB), que é o valor adicionado de toda produção é, necessariamente, igual à soma dos salários mais os lucros.
Essa identidade, manipulada algebricamente, é submetida a uma operação de derivação, às quais se adicionam duas hipóteses: que a participação dos fatores é relativamente constante, e que os salários e os lucros crescem a taxas constantes. Posteriormente submetida a uma operação de integração, produz a mais famosa de todas as funções de produção agregada, chamada Cobb-Douglas. O leitor não precisa se preocupar com essa prestidigitação. Trata-se de diversão matemática do pensamento mágico exercitado por "cientistas". Basta saber que toda função agregada de produção (da qual se extrai o conceito de produto potencial) é uma transfiguração daquela identidade. Como toda identidade, ela apenas é. Não tem qualquer poder explicativo!
Ainda agora, prestigiados economistas, preocupados com o "crescimento asiático" da economia brasileira (6,1% em 2007, 5,2% em 2008, e 7,5% em 2010) utilizaram a contabilidade do crescimento produzida por uma função Cobb-Douglas convenientemente "calibrada" pelas hipóteses: 1) que a participação dos rendimentos do trabalho no PIB é de 60% e do capital de 40%; 2) que a produtividade total dos fatores é da ordem de 1,5%; 3) que a oferta de trabalho (não as horas trabalhadas) é de 1,8%; e 4) que a taxa de investimento de 19% e uma taxa de depreciação de 25 anos produz uma taxa de expansão do capital de 4% ao ano, para chegar à "científica" conclusão que o "produto potencial do Brasil hoje é de 4,3% ao ano". Se não tivessem esquecido no "crescimento asiático" o ano de 2009, em que o produto decresceu 0,6% verificariam que nos últimos quatro anos o Brasil cresceu em média 4,6%. Esqueceram, também, a possibilidade de usar-se incentivos para estimular o uso mais intensivo dos estoques de capital humano e físico, o que influi, também, na produtividade geral dos fatores. Mas tudo isso é irrelevante. Uma identidade transfigurada ainda é apenas uma identidade, não explica nada.
Continuamos a computar nas "nuvens" e a mostrar do que é capaz o pensamento mágico!
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br
http://www.valoronline.com.br/impresso/brasil/97/415003/o-pensamento-magico
terça-feira, 19 de abril de 2011
Programa de cisternas atrasa, mas alivia seca
Murillo Camarotto | De Juazeirinho e Soledade (PB) 19/04/2011
Sob o sol impiedoso do Cariri paraibano, algumas poças d'água resistem na estrada de terra batida, herança da chuva que caiu na noite anterior. Historicamente castigada pela seca, a região vive os últimos dias do cenário verde propiciado pela bonança das águas. Do início de maio até dezembro, período da estiagem, a população local terá de colocar em prática a conhecida arte da austeridade hídrica, tarefa que ficou um pouco mais simples nos últimos anos para a minoria que possui cisternas em suas casas. Para os demais, a repetição do drama secular se avizinha.
Não é o caso do vaqueiro José Severino Antonio, nascido e criado em Juazeirinho, a 215 quilômetros de João Pessoa. Aos 63 anos, o velho sertanejo tinha nos olhos o brilho de um garoto enquanto observava a escavação de sua segunda cisterna, que servirá para a agricultura. A primeira, dedicada exclusivamente à "água de beber", chegou em janeiro, pondo fim a décadas de martírio. "Tomar uma aguinha limpa é bom demais", celebrou ele, enquanto a mulher lhe servia um copo generoso.
Antes da cisterna, Severino tinha que tomar água do barreiro, como é chamado o reservatório feito a partir da simples escavação de um buraco na terra. Não bastasse a péssima qualidade da água, os barreiros costumam secar nos períodos de estiagem mais acentuada. Quando isso acontecia, ele andava 12 quilômetros até um açude, onde tinha de pedir permissão para pegar a água, que ficava em um terreno particular. Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda é essa a realidade de uma grande parcela do Semiárido brasileiro.
O Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC) foi criado em 2003 com a meta de cumprir em cinco anos a tarefa que lhe dá o nome. No entanto, entrou em 2011 com pouco mais de 350 mil equipamentos instalados e sem perspectivas de conclusão. Gestora do projeto, a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) aponta a morosidade dos repasses federais como o principal entrave. Já o Ministério do Desenvolvimento Social, maior -financiador do projeto, se isenta da responsabilidade.
Além da simples construção das cisternas, o programa está inserido em outro mais amplo, voltado à "formação e mobilização para convivência com o semi-árido", que tem entre suas premissas mais importantes o acompanhamento e a orientação das famílias que já contam com a cisterna, o que nem sempre acontece.
Visitada pelo Valor em 2007, a dona de casa Miriam Cavalcante Ferreira, de 53 anos, aguardava na época a instalação de uma cisterna na casa do filho, o que ocorreu no ano seguinte. Apesar de se dizer satisfeita com o programa, ela garantiu desconhecer qualquer programa de acompanhamento das famílias, o que pôde ser percebido pelo estado de degradação de seu sítio, que chocou até mesmo os colaboradores da ASA, habituados às mazelas locais.
Além da falta de cuidado com a água da cisterna, exposta à presença de animais, o quintal apresentava mais de cem fraldas descartáveis usadas por todos os lados, atrativo para um batalhão de moscas. "Há falhas no acompanhamento posterior, como o cuidado com a água, por exemplo. Você não consegue mudar a mentalidade das pessoas só com uma palestra", admitiu José Walterlandio Cardoso, coordenador do Patac, uma das oito organizações que trabalham com a ASA na Paraíba.
A situação, felizmente, contrasta com a de outros beneficiados pelo programa, caso de Maria de Lourdes Eusébio Luiz, de 61 anos, que voltou a viver no Cariri depois de quatro décadas trabalhando como empregada doméstica, no Rio de Janeiro. Assim como muitos nordestinos otimistas com o crescimento econômico da região, ela fez o caminho de volta em 2006, influenciada pela cisterna que o pai havia recebido anos antes. "Aqui era péssimo de viver. Eu tinha que ir pra cacimba de madrugada procurar água", recorda.
Há um ano e meio, Maria de Lourdes foi contemplada com uma cisterna "calçadão", modelo voltado à produção agrícola e que faz parte de outro programa da ASA, chamado de "segunda água" ou "P1+2". O nome "calçadão" remete ao sistema de coleta da cisterna, que recebe a água da chuva que cai sobre uma placa de concreto de 200 metros quadrados e escorre até o reservatório, que tem capacidade para 52 mil litros. A cisterna tradicional, que acumula água vinda das calhas das residências, comporta 16 mil litros.
Com a abundância, Maria de Lourdes é atualmente a agricultora mais festejada da comunidade Sussuarana, em Juazeirinho. Nos fundos da casa onde mora sozinha, ela cultiva mais de 30 variedades de frutas e hortaliças, inclusive de tipos estranhos à região, como alho-poró e aipo. A produção é vendida e também doada para a vizinhança, uma comunidade que demonstra um invejável modelo de cooperação mútua.
Em oito anos, o programa de cisternas recebeu pouco mais de R$ 593 milhões, dos quais R$ 503,5 milhões com origem nos cofres públicos. O restante veio de parcerias com a iniciativa privada, sobretudo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), e com entidades internacionais de fomento. Os repasses federais são feitos anualmente, mediante o cumprimento das metas de construção de cisternas e a consequente renovação da parceria entre o ministério e a ASA.
A entidade, porém, reclama da demora nas renovações. "Parar um programa desse tamanho implica parar uma ação gigantesca e um conjunto de atores e pessoas. Quando o maior apoiador para, se arrefece todo o processo", avalia o coordenador do programa de um milhão de cisternas, Jean Carlos de Andrade. "Nossa capacidade de execução é maior do que a disponibilização dos recursos", diz.
O projeto atua hoje em 1.076 dos 1.133 municípios do Semiárido, beneficiando pouco mais de 1,6 milhão de pessoas. Outras 3,4 milhões, contudo, ainda estão na fila. Apesar do grande atraso em sua universalização, o P1MC tem apresentado bons resultados nas regiões aonde chegou. Pesquisas realizadas desde 2007 mostram melhorias na redução de doenças, no aumento da frequência escolar e na renda das famílias.
O Ministério do Desenvolvimento Social, por sua vez, se isenta da culpa pelo atraso na construção das cisternas. "Na nossa visão, a burocracia para os repasses não prejudicou o andamento do programa. O governo tem toda a burocracia, mas isso faz parte da execução orçamentária", defende-se a secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do ministério, Maya Takagi. "Além disso, a meta de 1 milhão de cisternas não é nossa. Nunca dissemos que íamos fazer", afirma.
Alheio aos argumentos, José Aurélio dos Santos, que aparenta mais do que seus 40 anos, faz cerca de 20 viagens diárias ao barreiro próximo de sua casa, em Juazeirinho. Ele ainda não foi contemplado com a cisterna e sequer sabe da existência do P1MC. Para evitar os queixumes da mulher grávida por causa do gosto ruim da água do barreiro, improvisou uma calha para capturar algo mais cristalino no período chuvoso. Sem emprego fixo, alimenta seis pessoas com R$ 167 mensais que recebe do Bolsa Família. Como em quase todo o Semiárido, o maior sonho é tirar da terra o próprio sustento.
http://www.valoronline.com.br/impresso/especial/101/415027/programa-de-cisternas-atrasa-mas-alivia-seca
Leo Caldas/Valor
José Severino Antonio, em frente à máquina que escava o solo para construir a segunda cisterna, que servirá para a agricultura, em sua casa, em Juazeirinho, a 215 quilômetros de João Pessoa: "Tomar uma aguinha limpa é bom demais"
Sob o sol impiedoso do Cariri paraibano, algumas poças d'água resistem na estrada de terra batida, herança da chuva que caiu na noite anterior. Historicamente castigada pela seca, a região vive os últimos dias do cenário verde propiciado pela bonança das águas. Do início de maio até dezembro, período da estiagem, a população local terá de colocar em prática a conhecida arte da austeridade hídrica, tarefa que ficou um pouco mais simples nos últimos anos para a minoria que possui cisternas em suas casas. Para os demais, a repetição do drama secular se avizinha.
Não é o caso do vaqueiro José Severino Antonio, nascido e criado em Juazeirinho, a 215 quilômetros de João Pessoa. Aos 63 anos, o velho sertanejo tinha nos olhos o brilho de um garoto enquanto observava a escavação de sua segunda cisterna, que servirá para a agricultura. A primeira, dedicada exclusivamente à "água de beber", chegou em janeiro, pondo fim a décadas de martírio. "Tomar uma aguinha limpa é bom demais", celebrou ele, enquanto a mulher lhe servia um copo generoso.
Antes da cisterna, Severino tinha que tomar água do barreiro, como é chamado o reservatório feito a partir da simples escavação de um buraco na terra. Não bastasse a péssima qualidade da água, os barreiros costumam secar nos períodos de estiagem mais acentuada. Quando isso acontecia, ele andava 12 quilômetros até um açude, onde tinha de pedir permissão para pegar a água, que ficava em um terreno particular. Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda é essa a realidade de uma grande parcela do Semiárido brasileiro.
O Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC) foi criado em 2003 com a meta de cumprir em cinco anos a tarefa que lhe dá o nome. No entanto, entrou em 2011 com pouco mais de 350 mil equipamentos instalados e sem perspectivas de conclusão. Gestora do projeto, a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) aponta a morosidade dos repasses federais como o principal entrave. Já o Ministério do Desenvolvimento Social, maior -financiador do projeto, se isenta da responsabilidade.
Leo Caldas/Valor
José Aurélio dos Santos não tem cisterna e é obrigado a fazer 20 viagens diárias para pegar água no
barreiro em Juazeirinho
Além da simples construção das cisternas, o programa está inserido em outro mais amplo, voltado à "formação e mobilização para convivência com o semi-árido", que tem entre suas premissas mais importantes o acompanhamento e a orientação das famílias que já contam com a cisterna, o que nem sempre acontece.
Visitada pelo Valor em 2007, a dona de casa Miriam Cavalcante Ferreira, de 53 anos, aguardava na época a instalação de uma cisterna na casa do filho, o que ocorreu no ano seguinte. Apesar de se dizer satisfeita com o programa, ela garantiu desconhecer qualquer programa de acompanhamento das famílias, o que pôde ser percebido pelo estado de degradação de seu sítio, que chocou até mesmo os colaboradores da ASA, habituados às mazelas locais.
Além da falta de cuidado com a água da cisterna, exposta à presença de animais, o quintal apresentava mais de cem fraldas descartáveis usadas por todos os lados, atrativo para um batalhão de moscas. "Há falhas no acompanhamento posterior, como o cuidado com a água, por exemplo. Você não consegue mudar a mentalidade das pessoas só com uma palestra", admitiu José Walterlandio Cardoso, coordenador do Patac, uma das oito organizações que trabalham com a ASA na Paraíba.
A situação, felizmente, contrasta com a de outros beneficiados pelo programa, caso de Maria de Lourdes Eusébio Luiz, de 61 anos, que voltou a viver no Cariri depois de quatro décadas trabalhando como empregada doméstica, no Rio de Janeiro. Assim como muitos nordestinos otimistas com o crescimento econômico da região, ela fez o caminho de volta em 2006, influenciada pela cisterna que o pai havia recebido anos antes. "Aqui era péssimo de viver. Eu tinha que ir pra cacimba de madrugada procurar água", recorda.
Há um ano e meio, Maria de Lourdes foi contemplada com uma cisterna "calçadão", modelo voltado à produção agrícola e que faz parte de outro programa da ASA, chamado de "segunda água" ou "P1+2". O nome "calçadão" remete ao sistema de coleta da cisterna, que recebe a água da chuva que cai sobre uma placa de concreto de 200 metros quadrados e escorre até o reservatório, que tem capacidade para 52 mil litros. A cisterna tradicional, que acumula água vinda das calhas das residências, comporta 16 mil litros.
Com a abundância, Maria de Lourdes é atualmente a agricultora mais festejada da comunidade Sussuarana, em Juazeirinho. Nos fundos da casa onde mora sozinha, ela cultiva mais de 30 variedades de frutas e hortaliças, inclusive de tipos estranhos à região, como alho-poró e aipo. A produção é vendida e também doada para a vizinhança, uma comunidade que demonstra um invejável modelo de cooperação mútua.
Em oito anos, o programa de cisternas recebeu pouco mais de R$ 593 milhões, dos quais R$ 503,5 milhões com origem nos cofres públicos. O restante veio de parcerias com a iniciativa privada, sobretudo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), e com entidades internacionais de fomento. Os repasses federais são feitos anualmente, mediante o cumprimento das metas de construção de cisternas e a consequente renovação da parceria entre o ministério e a ASA.
A entidade, porém, reclama da demora nas renovações. "Parar um programa desse tamanho implica parar uma ação gigantesca e um conjunto de atores e pessoas. Quando o maior apoiador para, se arrefece todo o processo", avalia o coordenador do programa de um milhão de cisternas, Jean Carlos de Andrade. "Nossa capacidade de execução é maior do que a disponibilização dos recursos", diz.
O projeto atua hoje em 1.076 dos 1.133 municípios do Semiárido, beneficiando pouco mais de 1,6 milhão de pessoas. Outras 3,4 milhões, contudo, ainda estão na fila. Apesar do grande atraso em sua universalização, o P1MC tem apresentado bons resultados nas regiões aonde chegou. Pesquisas realizadas desde 2007 mostram melhorias na redução de doenças, no aumento da frequência escolar e na renda das famílias.
O Ministério do Desenvolvimento Social, por sua vez, se isenta da culpa pelo atraso na construção das cisternas. "Na nossa visão, a burocracia para os repasses não prejudicou o andamento do programa. O governo tem toda a burocracia, mas isso faz parte da execução orçamentária", defende-se a secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do ministério, Maya Takagi. "Além disso, a meta de 1 milhão de cisternas não é nossa. Nunca dissemos que íamos fazer", afirma.
Alheio aos argumentos, José Aurélio dos Santos, que aparenta mais do que seus 40 anos, faz cerca de 20 viagens diárias ao barreiro próximo de sua casa, em Juazeirinho. Ele ainda não foi contemplado com a cisterna e sequer sabe da existência do P1MC. Para evitar os queixumes da mulher grávida por causa do gosto ruim da água do barreiro, improvisou uma calha para capturar algo mais cristalino no período chuvoso. Sem emprego fixo, alimenta seis pessoas com R$ 167 mensais que recebe do Bolsa Família. Como em quase todo o Semiárido, o maior sonho é tirar da terra o próprio sustento.
http://www.valoronline.com.br/impresso/especial/101/415027/programa-de-cisternas-atrasa-mas-alivia-seca
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O caminho para a crise fiscal
Ao analisar o efeito do socorro dos governos ao sistema financeiro, Simon Johnson, em artigo publicado no Valoronline, em 07/04/2011, diz que O "ciclo apocalíptico" acaba desaguando na Islândia, Irlanda e Grécia.
Tornou-se moda entre pessoas bem informadas em Washington - tanto democratas como republicanos - jogar a toalha, dizendo: no fim das contas, teremos uma grande crise orçamentária, nos EUA, especialmente porque o aumento dos custos com a saúde amplia a carga fiscal de direitos sociais como o Medicare e o Medicaid. Mas, então, as mesmas pessoas geralmente sorriem e enfatizam que os investidores de outras partes do mundo ainda querem emprestar aos EUA enormes montantes de dinheiro, manter baixas as taxas de juro de longo prazo e permitir que o país incorra em grandes déficits num futuro previsível.
Essa visão é equivocada. Ela implica que os EUA continuem empurrando os problemas com a barriga, enquanto o dólar continuar sendo a mais importante moeda de reserva mundial e que os EUA continuem o melhor refúgio para os ariscos donos de capital.
Até 2015, de acordo com essa lógica, os políticos nada terão feito para aumentar os impostos e muito pouco para reduzir as despesas, de modo que os EUA continuarão com um déficit orçamentário em torno de US$ 1 trilhão e financiarão uma parte substancial do mesmo mediante a venda de títulos do governo para estrangeiros. Em 2050 haverá certamente um problema fiscal - mas, novamente, há tempo de sobra para ignorá-lo.
Essa lógica, apoiada na clara intenção do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de manter baixas todas as taxas, sugere que o juro referencial nos EUA - por exemplo, sobre os títulos do Tesouro de 10 anos - permanecerá abaixo de 4% (e talvez inferior a 3,5%) no curto prazo. No fim de março, a dívida pública pagava cerca de 3,2%, muito baixo, pelos padrões históricos.
Se o "Consenso Fiscal de Washington" revelar-se correto, quando as taxas de referência, finalmente subirem um pouco, avançarão lentamente.
Os bancos americanos grandes demais para falir estão indo bem na tarefa de se tornar grande demais para ser salvo. Esse ponto será atingido quando proteger seus credores e estabilizar a economia fará o governo americano mergulhar em endividamento e irromper uma crise fiscal.
Entre as três pessoas que articularam mais claramente esse problema estão dois dos mais importantes presidentes de bancos centrais. Antes de Ben Bernanke tornar-se presidente do Fed, ele foi merecidamente reconhecido por seu trabalho acadêmico sobre a Grande Depressão, que mostrou como, em condições apropriadas (ou inadequadas), o setor financeiro poderia atuar como uma espécie de acelerador de avanços na economia (não financeira) real. Os esforços do Fed nos últimos três anos para estabilizar os bancos e outras partes do mundo financeiro foram, sem dúvida, motivados em grande parte por esse entendimento.
Anat Admati, professora da Stanford Graduate School of Business, é especialista em capital bancário - especificamente, nos incentivos que os bancos têm para financiar suas atividades com alavancagem muito grande - pouco capital e muita dívida. Em minha opinião, ela tem a página mais importante, atualmente, na web (www.gsb.stanford.edu/news/research/admati.etal.mediamentions.html), que contém tanto pesquisas originais dela, de Peter DeMarzo, Martin Hellwig e Paulo Pfleiderer, e suas muitas intervenções no debate sobre política monetária.
O entendimento de Admati e seus colaboradores é simples e muito poderoso. Maior alavancagem permite aos banqueiros ganhar mais dinheiro, mas pode facilmente tornar-se excessiva para os acionistas - porque torna os bancos mais vulneráveis a colapsos - e isso é terrível para os contribuintes e para todos os cidadãos, uma vez que arcam com enormes custos quando as coisas desandam. Nos EUA, os custos incluem mais de 8 milhões de empregos perdidos desde 2007, um aumento de cerca de 40% da dívida pública em relação ao PIB (principalmente devido à perda de receitas fiscais) e muito mais.
Mervyn King, ex-acadêmico atualmente presidente do Banco da Inglaterra e seus colegas têm um nome vívido para o coquetel tóxico resultante: "ciclo apocalíptico". A ideia é que cada vez que o sistema financeiro está em dificuldades, recebe apoio dos bancos centrais e dos orçamentos governamentais. Isso limita os prejuízos dos acionistas e protege quase todos os credores.
Em consequência, os bancos têm incentivos ainda maiores para continuar tomando empréstimos, como argumenta Admati), e, à medida que os preços dos ativos sobem, torna-se possível para eles tomar ainda mais empréstimos (como Bernanke sabe). Mas o que isso realmente significa é assumir mais risco, tipicamente de forma não regulamentada, não supervisionada - e com muito pouca governança eficaz nos próprios bancos (de novo, Admati explica por que os executivos bancários gostam disso).
Os bancos americanos grandes demais para falir estão indo bem na tarefa de se tornar grande demais para serem salvos. Esse ponto será atingido quando salvar os grandes bancos, proteger seus credores e estabilizar a economia fará o governo americano mergulhar tão profundamente em endividamento que sua solvência será colocada em questão, os juros subirem drasticamente e irromper uma crise fiscal.
Em outras palavras, o "ciclo apocalíptico"" não é, absolutamente, um ciclo. Na verdade, ele acaba desaguando, como já aconteceu - e esse é apenas o começo da história - na Islândia, Irlanda e Grécia.
Simon Johnson, ex-economista chefe do FMI, é cofundador de importante blog sobre economia (www.BaselineScenario.com) , professor da MIT Sloan e membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional. Seu livro, "13 Bankers" (13 banqueiros), em coautoria com James Kwak, está disponível na forma de livro de bolso.
http://www.valoronline.com.br/impresso/opiniao/98/409481/o-caminho-para-a-crise-fiscal
quarta-feira, 6 de abril de 2011
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