Primeiro, seu aspecto, que lembra um pouco o meu avô, demonstra quão crítico é seu estado de saúde; tendo perdido muitos quilos, está agora com os ossos à mostra; seu rosto, desfigurado pela reentrâncias, seu queixo proeminente; enfim, de início tive dificuldade em reconhecer naquela figura, carcomida pelo tempo e pela doença, meu Pai.
Ainda, as doenças, crônicas, estão consumindo seus dias, sua vista, sua capacidade de pensar, de falar; vai perdendo - se já não perdeu, qualquer noção de realidade.
Parece que meu velho vive, agora, num espaço apenas dele, onde ninguém alcança, ninguém enxerga, ninguém pode compartilhar.
Tudo isso faz com que ele não mais reconheça as pessoas e, pela primeira vez, não disse meu nome! É triste constatar isso.
Ouvi-lo pronunciar meu primeiro nome no diminuitivo, como sempre, faz uma falta danada! Nunca tinha percebido a importância disso. . . fica apenas uma lembrança que guardarei, com carinho. Era doce a forma com que dizia meu nome, tinha alegria em sua voz e isso, percebo agora, me enchia de alegria e orgulho, sobretudo.
Estou aqui, mas não posso esquecer nem desligar, meu pai pode precisar de algo. Ainda bem que a Odete, uma negra que faz o que gosta, acompanha e providencia tudo que ele precisa. Essa mulher, que não conhecia, tem um valor inestimável. Peço a Deus que a ilumine, hoje e sempre.
Meu pai ficou lá, quase inerte, lutando com todas as suas forças pela vida, ainda que limitada: como bom combatente ele não se entrega: faz de cada passo, uma conquista, de cada levantar da cadeira, um golpe nas enfermidades, de cada copo d´agua, um feixe de vida e, assim, vai vivendo, vivendo até que um dia as forças lhe faltem e, assim, tenha que partir.
Partir em busca do além, demonstrando para todos nós, filhos, netos, agregados, enfim todos que o conhecem, que a vida vale a pena, que temos que lutar para viver.
Pai, peço a Deus que derrame muita luz e força sobre você, para que continue firme, sem se entregar, nunca. um beijo com amor, carinho e eterna gratidão,
seu filho, Cidinho