PARTIDA
Há vinte e um dias, vi uma partida: dolorida, triste, mas um momento de rara singeleza.
Na madrugada daquele cinco de dezembro, meu pai partia para uma nova realidade que todos nós um dia experimentaremos.
Fica uma saudade imensa, mas olhando com abertura de coração, foi uma partida necessária, pois ele sofria muito; há tempos não tinha uma vida plena, dependendo das pessoas para suas necessidades mais básicas.
Dessa experiência, posso tirar uma ou outra conclusão.
A primeira, é que não podemos lutar contra a força da natureza!
Chega um momento em que a vida vai se fechando e, encerrando um estágio, desaparece. Em nosso egoísmo, temos a intenção ou o desejo de que o outro fique sempre conosco, mas não é assim: o ciclo da vida exige a morte.
Para permitir essa experiência é necessário desapego. E essa exigência é dirigida às pessoas – parentes, amigos, familiares – que acompanham de perto o desenlace, pois o apego à “vida” faz com que a travessia seja mais difícil, mais sofrida para o outro e, também, para todas as pessoas.
Esse desapego não nos é ensinado; ao contrário, a defesa da vida é um valor, devendo mantê-la a qualquer preço e, nesse contexto, é difícil entender que está chegando o fim: contraria tudo o que acreditamos!
Outro aspecto: reconhecida essa proximidade da partida é necessária facilitá-la; não com a eutanásia!
Estar presente e transmitir ao outro tranquilidade, espírito de paz e serenidade é atitude essencial. A experiência inusitada da morte é exigente: deixar-se partir para o desconhecido amedronta.
Continua o insondável mistério, no entanto não se pode deixar de reconhecer a importância da morte como finitude da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário